Estou de passagem neste mundo,

Mas deixo aqui o registro de minhas palavras.

Eu sou o peregrino do tempo.


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sábado, 9 de novembro de 2013

A beleza que nos cerca

Olhe bem para os meus olhos. Eu vi as estrelas. Por um poço aberto sobre a minha casa, entre as nuvens que fechavam o céu, elas cintilavam. É raro semelhante esplendor na cidade grande. Mas é natural que brilhem mais antes da alvorada, quando a noite é mais escura. Na hora mais escura, as estrelas se mostram mais brilhantes. E também haviam alguns vapores arroxeados que lembraram uma nebulosa distante. O buraco no céu me transportou pelas galáxias. Agradeci ao universo por tamanho espetáculo. A beleza nos cerca o tempo todo, e há quem só olhe a tristeza. Mas na hora não pensei nisso, centrei-me apenas no milagre que o céu me regalava e me senti cheio dessa luz. Enriqueci meu coração e brilhei como as estrelas. Nesse momento me perguntei quantas pessoas no mundo naquela mesma hora estariam contemplando as estrelas, quantos narcisos se espelhavam no lago cósmico, esperando a estrela gêmea lhe devolver o olhar. Creio que a maioria pensa diferente. Cansei de ouvir: “Oh, é nestas horas, diante desta grandeza, que percebemos o quanto somos pequenos”. Eu não penso assim. Pelo contrário. De nada vale o poder das estrelas de lançar sua imagem através do espaço se não há olhos que as vejam. São meus olhos os donos da força capaz de captar a luz das estrelas. Então nós nos completamos. Sem meus olhos elas jamais seriam vistas como eu as vejo. E as vejo com o coração. É minha alma que as sente e as transforma em maravilhas. As estrelas só cintilam quando nos estão olhando, e brilhamos quando retribuímos o olhar.

(Kizzy Ysatis, São Paulo, 8 de novembro de 2013)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

EIS O MUNDO DE FORA


Escritora se mostra alquimista ao fazer o real virar maravilhoso
Por Kizzy Ysatis


Quem está acostumado com histórias em que todas as coisas se resolvem concretamente no final vai estranhar o romance de Adrienne Myrtes. No mundo real as resoluções são abstratas. Eis o mundo de fora, livro vencedor do Prêmio Petrobrás Cultural, expõe ossos e nervos em um dueto fraterno com o delírio.
      Os protagonistas Irene e Luis são como a dupla do famoso sitcom Will e Grace: a mulher hétero que mora com o melhor amigo gay; só que na realidade o drama se sobrepõe à comédia. Luis acabou de tentar suicídio quando Irene descobre que sua avó padece de uma doença em estado terminal. Ambos decidem viajar e ficar uma semana com a velhinha. E é nessa viagem que conhecemos suas histórias.
    Irene enxerga o realismo do mundo, como ele se apresenta fisicamente, sem a maquiagem que a humanidade criou pra deixá-lo suportável.

“Aprendi a ver a vida por dentro e virar a morte pelo avesso. Daí veio meu talento para ignorar a mistificação do mundo, a possibilidade de castigo divino (...) A descoberta do miolo das coisas, das células e suas organelas foi um tiro sem misericórdia nas tentativas de minha avó de me fazerem temer a deus sobre todas as coisas, de me fazerem ansiar pelo céu e fugir do inferno.”

       Para Irene o coração não é o naipe de copas, é aquele músculo feio cheio de artérias, que não à toa é a imagem na capa do livro desenhada, assim como as ilustrações internas, pela própria autora que também é artista plástica. As imagens engendradas por Myrtes nos remete ao onírico em contraste ao realismo da trama. Irene teme viver o presente e se assusta quando precisa enfrentar o passado, então ela o mastiga.

          “Eu me abandonava pelos cantos até ficar invisível. Deixei o esquecimento dos adultos chover sobre mim para crescer. Mantive-me atenta a eles. A ausência de outras crianças me beneficiou com o silêncio, aprendi a falar pouco e a ouvir o vento, o latido dos cachorros na rua, a chuva durante a noite.”
               
         A princípio Irene parece ser mais profunda. A vejo como uma cebola: cheia de camadas. Tem família, tem infância, tem sorvete de mangaba. Luis tem a ele mesmo, e isso o torna fascinante. Na primeira metade do livro preferi Irene; preferi Luis na segunda, mas no final descobri ambos como uma somatória. Ela se reserva, ele se joga.
     Com Luis a metáfora está feita: ele não tem olhos pra realidade, enxerga o mundo através da artificialidade de suas lentes de contato. Prefere as ilusões que cria. Retira suas lentes quando quer mergulhar para seu próprio universo.

        “A vida é uma mulher velha e feia que sente falta de orgasmos. Na impossibilidade de resistência, porque ela me agarra pela garganta, me disponho a inundá-la com o meu gozo.”

          Luis é legal porque se expõe com naturalidade, é despido de pudores.

                “O sexo dele também cheirava a jasmim, jasmim em botão que explorei com os dedos, pétala por pétala a flor do cu.”

          No começo Luis é uma bala: a gente chupa, chupa, mas quando parece que vai perder o gosto, ele se refaz com mais intensidade. Ama Irene, mas briga com o senso de realidade da amiga, cede ao delírio e se torna o oposto perfeito.

              “Irene diz que nos salvamos pela dor. Apenas a dor é o antídoto para a estupidez humana, Irene parece farmacêutica, xarope. Não estou a fim de receita. Ela precisa aceitar que talvez eu não queira ser salvo, que a danação eterna pode ser meu plano de carreira.”

              “Agimos feito alquimistas que se propõem a transformar ouro em chumbo para se sentirem reais. Precisamos nos convencer de que a realidade é valiosa. De que o delírio é impuro. Dionísio que nos salve da nossa sensatez.”

        Eis o mundo de fora é visceral e perturbador, mas está longe de ser uma leitura pesada. Vem em camadas ora sutis ora explícitas. O mérito está na sensibilidade da autora em reger sua obra com competência. O real é feio, mas a autora é fecunda e sabe dar encanto, deixa tudo mais belo e até divertido. Cada palavra é cuidadosamente escolhida, cada sentença, prodigiosamente executada. Myrtes cria epigramas e aforismos dignos de Wilde, questionamentos shakespearianos; faz uso de recursos poéticos que enriquecem a prosa, assopra ecos e produz aliterações que faria inveja ao mais proeminente simbolista. Irene vê o mundo com olhar clínico, os pensamentos são dela, mas é Adrienne quem segura à caneta.
          Na ficção a mocinha derrota a vilã, enriquece e se casa no mesmo dia. Na vida real algumas coisas se resolvem, outras, não. Eis o mundo de fora é honesto, não forja mentiras nem reforça a esperança de que os sonhos são possíveis, mas também não desaponta nem nos desconforta, pelo contrário, deixa uma sensação libertadora. Não é resignação, apenas exalta a graça da continuidade. Tudo é passageiro, mas o jogo continua. Virão outros desafios. Com o dedo indicador eu escrevo na tela do computador:
Essa é a maravilha de estar vivo.

Título: Eis o mundo de fora
Autora: Adrienne Myrtes
Editora: Ateliê Editorial
Páginas: 168
Quanto: R$ 35,00
Onde comprar: LIVRARIA CULTURA

Adrienne Myrtes nasceu no Recife/Pernambuco e vive em São Paulo desde 2001. É também artista plástica. Publicou o livro de contos: A Mulher e o Cavalo e outros contos (Editora Alaúde, EraOdito Editora, 2006), a novela juvenil: A Linda História de Linda em Olinda (Editora Escala educacional, 2007) este último em parceria com o escritor Marcelino Freire e participou, das antologias Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial, 2004) e 35 Segredos para Chegar a Lugar Nenhum – Literatura de Baixo-Ajuda (Bertrand Brasil, 2007) entre outras. E-mail: adriennemyrtes@hotmail.com

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O jeito mais inovador de aprender a escrever e publicar ao mesmo tempo!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A Cozinha Literária do Kizzy: as inscrições continuam sendo feitas. Os inscritos estão nos enviando as receitas de seus livros para o processo seletivo e a variedade no cardápio me apeteceu. Será uma disputa acirrada. Quem vai vencer? Qual iguaria literária será publicada e servida no coquetel marcado para dezembro? E você? Quer participar deste reality? Ainda dá tempo! Saiba mais em:
www.terracotaeditora.com.br
Parabéns aos primeiros aprovados para A Cozinha Literária doKizzy! Vocês provaram que tem coragem, talento e boas ideias. Merecem estar na minha cozinha. Aos que não foram selecionados, não desistam de seus sonhos. E você, que ainda não se inscreveu, corra! As vagas são limitadas, mesmo, e não haverá segunda turma dessa vez! Inscreva-se já!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O que faz um personagem se tornar inesquecível?
Palestra gratuita, vagas limitadas, inscreva-se já!

sábado, 17 de dezembro de 2011


VIM, ESCREVI E VENCI, AGAIN! Chegou agorinha do Rio uma surpresa. Acabei de receber o Certificado de Honra ao Mérito da UBE - União Brasileira de Escritores, estou felicíssimo e queria compartilhar. Só de saber que agora o concurso é internacional e que concorri com o dobro de participantes do que eu disputei quando ganhei o Rachel de Queiroz em 2005 me deixa ainda mais orgulhoso em ter minha literatura reconhecida novamente por uma instituição de tamanho renome."Orgulho, não: inveja de mim mesmo." (Drummond)

terça-feira, 30 de agosto de 2011






Lendo "Aspectos do Romance" E.M. Forster depois de ler "Maurice", do mesmo autor, só para seguir com Forster, para os escritores de plantão, eis Aspectos do Romance. Foi ele que criou o termo "personagem redondo" (nada a ver com a cerveja, viu?). Recomendo ambos.


O filme também é cuidadoso, o final feliz à la Jane Austen gay é menos sutil mas não desmerece livro. Quem não conseguir locar, sugiro que baixe e assista. É tenso, rs

sexta-feira, 12 de agosto de 2011



RECOMENDO:

KAORI 2: CORAÇÃO DE VAMPIRA

Em setembro, chega mais uma aventura da vampira japonesa Kaori, criação da escritora Giulia Moon.

Praia de Copacabana, Rio. Uma bela garota oriental passeia pelo calçadão. Seus olhos oblíquos seguem alguém: Yoshi, um garoto de programa meio-brasileiro e meio-japonês, com um raro talento para sedução. Ferida por um amor trágico do passado, Kaori enfrenta um dilema: dar vazão ao seu desejo pelo mestiço ou manter-se protegida, salvaguardando o seu coração?

Enquanto isso, o mundo sofre a ameaça de uma praga virulenta. Mortos-vivos, ogros, demônios e criaturas fabulosas começam a enlouquecer. Em São Paulo, os especialistas do IBEFF entram em ação para controlar o surto. E Kaori será envolvida, a contragosto, em mais um perigoso confronto com a sua arqui-inimiga, Missora, uma cruel cortesã do Japão feudal.

Entre as paisagens tropicais cariocas e uma São Paulo caótica e agitada, a nova aventura de Kaori, a vampira, vai fazer os corações baterem acelerados a partir de setembro, quando estará à venda nas livrarias.

Kaori2: Coração de Vampira
Giulia Moon
Giz Editorial, 2011
Formato: 16 X 23 cm, 432 páginas.
Nas livrarias a partir de setembro.
Atenção: em pré-venda a partir de 11/08/2011 no site da Giz Editorial.

- Eventos:

Lançamento no XV Bienal do Livro – Rio de Janeiro.
Sessão de autógrafos no dia 10 de setembro, sábado, 16h00.
Estande P27 – Pavilhão Verde – Centauro Editora (em parceria com Giz Editorial).

Lançamento em São Paulo:
Dia 22 de setembro, quinta, das 19h00 às 21h30.
Livraria Martins Fontes Paulista – Av. Paulista, 509 (próximo ao metrô Brigadeiro).
Estacionamentos conveniados: Rua Manoel da Nóbrega, 88 e 95 (1ª. hora gratuita).

- Sobre a autora:

Giulia Moon é paulistana, e fez de tudo em propaganda: diretora de arte, ilustradora, redatora e diretora de criação. Apaixonada por vampiros, lobisomens e seres obscuros de qualquer espécie, já lançou três coletâneas de contos: Luar de Vampiros (Scortecci, 2003), Vampiros no Espelho & Outros Seres Obscuros (Landy, 2004) e A Dama-Morcega (Landy, 2006).

Em 2009, Giulia publicou o seu primeiro romance, Kaori: Perfume de Vampira (Giz Editorial, 2009), onde narra uma história emocionante, que tem como cenários o misterioso Japão feudal e a caótica São Paulo contemporânea. Sucesso na Bienal do Livro, o livro esgotou-se no primeiro dia do evento, tornando-se uma referência entre os amantes de histórias de vampiros.

Giulia, agora, volta às livrarias com o romance Kaori2: Coração de Vampira, tendo mais uma vez como protagonista a bela e perfumada vampira oriental, que deixa nos seus amantes a marca dos seus caninos e uma misteriosa tatuagem de dragão. E promete grandes emoções para os seus leitores, que esperaram com ansiedade pelo livro.

Para saber mais sobre Giulia Moon, acesse www.giuliamoon.com.br ou o seu blog phasesdalua.blogspot.com.

- Maiores informações:

*Giz Editorial
Simone Mateus (editora) – simone@gizeditorial.com.br
Fone: (11) 7889-7112

*Giulia Moon - giuliamoon1@yahoo.com.br
Fone: (11)3209-615o


terça-feira, 19 de outubro de 2010

Aqueles que Habitam o Paralelo Noturno

V - Uma dose de nostalgia

Lembrou-se dos contos de fada, a Chapeuzinho Vermelho. Ou seria O Lobo Mau? Já que este aparecia em mais histórias, como a dos três porquinhos. Deveria ter um livro só dele. Mas só conhecia essas duas. Então não dava para chamar de As Crônicas do Lobo Mau.

Lembrava-se dos contos de fadas. Por que esses olhos tão grandes? Olhava ao redor. Por que tantos quartos? Tantas salas, alas, janelas? Um corredor imenso? Por que uma cozinha? “para quê?” seria a pergunta mais adequada? E para quê (então) uma casa tão grande e distante no alto da colina? no platô envolto a centenárias árvores? Quartos para quem se o anfitrião não recebia visitas? E por que tantas camas se de noite ninguém dormia? Disso Fernando sabia. Esse vampiro dono desta casa tem mania de grandeza. Veja essas tapeçarias, móveis de bom gosto bem conservados. Para quem, aos fantasmas? A casa grande era de alvenaria. Em baixo era de carrara. Em cima, carpintaria. Na biblioteca, só os clássicos em variados idiomas. Chamou-lhe a atenção os 24 volumes da Biblioteca Internacional de Obras Célebres. A poesia esparzida na escrivaninha, cadeiras, bancos e mesinhas. O vampiro é romântico, mas pelo visto também é realista, parnasiano, modernista, surrealista, contemporâneo. Olha Gonçalves Dias, Castro Alves em capa de madrepérola, Drummond em verde percalina, Aureliano... Crisálida: poema machadiano, Bilac ouvindo estrela; Andrade (este, o Mário) bagunçando com Guilherme de Almeida. Arnaldo Antunes se destacando, Quintana e Pessoa que Fernando adora; Augusto e até Camões, que cruzou o mar para se unir as canções do Brasil afora. Pilhas de enredo, e no consolo da lareira a obra completa de Álvares de Azevedo.

Muita gente morta. Mortais que escreveram. Mortais por nascimento, imortais por merecimento. E por esse motivo, de todos os cômodos, a biblioteca era o único canto que se mantinha vivo.

Fausto tinha saído. O fogo se extinguido. Fernando o reacendeu. Apaixonado pela chama sentou-se calmamente olhando o brilho, o ardor, a sanha. A lenha crepitando. Livros e fogo tinham cheiro de lembrança. E então num clarão ligeiro, o fogo cambiou a cor, num índigo rancor, como os olhos de Fausto, que eram assim da cor dos de Fernando, que permaneceram impassíveis, fixos na labareda azul como fogo de fogão a gás, que dançava sobre a madeira, consumindo-a inteira, qual a mão de satanás.

[Continua na próxima terça]

LEÃO NEGRO

A busca pelo vampiro Luar


Um romance de KIZZY YSATIS

sábado, 2 de outubro de 2010

O Décimo Sexto Comentário

Evan, nós dois estamos no Clube. Você relendo e eu reescrevendo. ;)

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Rose, ^_~

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Noite em Claro

Sou eu que agradeço pela visita.

Sobre sua pergunta: "por que reescrever o Clube?", você meio que respondeu. Tenho minha opinião formada: Escrever é a arte de reescrever (anote no seu caderninho). Enquanto estiver vivo e puder melhorar, repito, melhorar, eu o farei, ou então nem toco no texto. Foram exaustivos 5 anos pra fazer o Clube. Por mais que gostem (e que eu ame aquela história), eu era marinheiro de primeira viagem. Têm passagens ali pedindo por lapidação, limpeza eaté reparos no português e na gramática. Umas passagens, eu deixarei mais enxutas, outras ampliarei. Tudo foi pensado. O começo é gorduroso e o final é frenético, deixarei o texto levemente consoante. Não mudarei nada, as mudanças serão poucas. É como um quadro ou monumento que precisa de manutenção ou restauração. Lygia Fagundes Telles reescreveu Ciranda de Pedras por meio século. Em dez anos Marcelo Rubens Paiva reescreveu todos os seus livros. Acha que versão de Dom Casmurro que está à disposição é a primeira? Não. O pobre negro tartamudo e epilético deve ter tido uma convulsão daquelas quando releu a versão impressa. João Mindlin tinha uma dessas edições rabiscadas por Assis. Murilo Rubião, mestre, é a maior prova de que para ser um Jedi das letras deve-se reescrever buscando o máximo da perfeição no livro presente sem deixar o livro passado pra trás. Imagine: no final (ou auge) de sua carreira se compararem seus livros e falarem que o primeiro não é tão bom quanto o último. Tendo se tornado um autor sazonado (e de cabelos branquinhos), não ia querer que sua obra completa estivesse de igual valor? Pense nessas coisas. A obra rápida, cujo autor nega cuidados, é rapidamente esquecida. Aquela que leva tempo e cuidadosamente toma talho refinado e preciso, será imortal.

Você observou bem a diferença entre as três passagens, outros não vão percebê-las (o que é natural), (postagem sobre Luar, 14-09, sobre Fernando e esta última). O prólogo está no passado, portanto pensei num ritmo mais lento e clássico, embora tenha deixado o mais enxuto possível. Pretendo tornar as partes que se passarem no passado, com um tom mais clássico e poético. A parte contemporânea de Claudio e marta, quero deixar mais ágil e aumentar os diálogos, isso dá ritmo, ainda que não as deixe menos intimista. Lembre-se: os pensamentos e sentimentos secretos dos personagens estão lá, expostos. Claudio temeu ao reconhecer que agora a amiga passou para o time dos sobre-humanos. Marta, por sua vez, resigna-se melancolicamente, embora tenha mantido o bom humor, atenção aos amigos e a fragilidade e delicadeza de sempre. Todas as sibilas ligadas ao Luar sofreram nos ritos de passagem, mudaram e entristeceram muito. Embora esteja mais velha e também tenha sofrido pela perda de Luciano e outros amigos, ela tentará manter o otimismo, até o fim. Marta é a sibila do novo milênio, terá um ar mais despojado, vide a diferença pelo corte radical do cabelo. As partes de Fernando deverão ser um misto entre as partes do passado e as atuais, pois contém um personagem das duas eras: Fausto. Essa é uma das novidades da estrutura narrativa que pensei para este novo romance. Espero que se divirtam muito.

Suas perguntas, tão bem cabidas, sempre merecem um post a parte, de tão longas que tornei as respostas, rs.

Obrigado.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010


Desenho a lápis: Kizzy Ysatis. Arte-final a nanquim: Claudio Mor

O DÉCIMO TERCEIRO COMENTÁRIO

Gui,

Obrigado pela visita. Estava sumido por aqui. Venha sempre.

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Jhaniny,


Recebi seu simpático e-mail. O responderei com calma. E reitero: vocês são sim meu combustível maior.

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Olá, Noite em claro.


Obrigado por ler meus livros. Maravilha que goste. Leia a Tríade sim, sei que gostará como gostou dos outros.


Você perguntou sobre minha intenção ao repetir algumas vezes o nome Fernando, a resposta é simples: sonoridade. Mas isso não explica nada. Como você é meu leitor, merece uma atenção mais cuidadosa.


No senso comum da literatura, a repetição é associada a um erro, uma ranhura na tela do artista, quando não pensada. Não é o caso aqui. O artista é feito de intuição e técnica. A repetição do nome Fernando surgiu à toa, gostei da idéia, limpei o excesso e o usei como recurso. Não repete tanto a ponto de enfadar, está na dose certa. Às vezes se usa quando não se quer usar pronome. É um recurso que possui um sem-número de causas e efeitos, também comum em histórias infantis e poesia.


O bom prosador gosta de poesia e o bom poeta é prosador. Tenho esse pé na poesia. Fora o prólogo, este texto é a abertura oficial do meu novo romance. Releia a primeira frase dos outros, tenho muito cuidado com elas, assim como presto muita atenção na primeira frase dos livros que leio; e sei que vou gostar ou não do livro ao ler a primeira frase.


Eu penso muito no primeiro parágrafo. Precisa haver magia aí para encantar o leitor. Minha intenção é múltipla inumerável, poderia chamar o recurso de fono-estilística, pois cria certa musicalidade. Um teórico poderia nomear de paralelismo, progressão temática etc, mas aí analisaríamos de modo frio como quem faz uma autópsia. Ao dissecar meu texto, eu mesmo, o mataria. Deixo isso aos acadêmicos. Eu faço arte, eles teorizam, criam nomes para dizer que sabem mais e suprir a falta de sensibilidade e talento. A expressão artística produz efeitos na alma do leitor, é por essa rota que eu caminho. Aprende-se com observação e prática, sem análise ou comparação ou medição. A arte não se pode definir. A arte é imponderável. Imensurável. Acaso se é possível medir o tamanho da saudade? Do amor?


Jhaniny me disse que Fernando foi uma boa escolha, mas a escolha veio sozinha. Não fiz uma seleção. Ele saiu como se já existisse, como se não houvesse outro. Quiça uma egrégora me fez gritar Pessoa, e assim Fernando me foi soprado. A personagem é nova. Tive, sim, mil intenções das mais variadas. Dizê-las, só estragaria a história. Em última analise, é evidente que a repetição tem um efeito na memória, para que se lembre daquilo que foi repetido, e se eu repeti o nome dele, e comecei por ele, é porque Fernando terá um papel especial a ser cumprido, por isso, fique de olho no rapaz.


Finalizando, neste caso, foi uma repetição pensada. Mas posso E VOU cometer erros. Estou escrevendo, lendo e postando. É a primeira versão do livro, da qual estou repartindo esse processo de criação com meus leitores que tanto amo. Depois de terminado o primeiro copião, ele passará por um processo de lapidação e por último uma revisão profissional e ainda assim, erros poderão escapar aos nossos olhos e sair na edição impressa. É natural.


Peço aqui que continue lendo e, todos que tiverem dúvidas, perguntem. Se acharem que é erro, apontem. A idéia é essa. Eu quero escrever esse livro com o acompanhamento dos leitores, eles acompanharam o vampiro Luar até aqui, têm direito a esse privilégio. Assim como eu, que ganhei o privilégio de ter quem leia e goste do que escrevo.


As palavras são sementes assim sopradas ao acaso no ouvido do artista. Nascem na alma e morrem na boca; mas, se forem escritas, serão árvores eternas no coração do mundo. São as cores moldadas com o apuro e técnica pelo autor que canta, com as palavras, o fazer do Belo Ofício.


Obrigado e continue por aqui