Estou de passagem neste mundo,

Mas deixo aqui o registro de minhas palavras.

Eu sou o peregrino do tempo.


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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011


Aqueles que habitam o Paralelo Noturno


XIII - Uma leve bofetada

Embora Marta já estivesse familiarizada com a imprevisibilidade do sobrenatural, a aparição do espírito de sua bisavó a comoveu demais. Pensou em manter a naturalidade, enquanto o coração brigava como criança para correr ao abraço. Queria dizer o quanto estava feliz e ao mesmo tempo honrada.

Elaine apagou o cigarro num cinzeiro que antes nem existia e levantou-se, solenemente:

— Vem cá, filha. Primeiro vem me dar um abraço.

Marta foi bem depressa.

— Esperaste muito por isto, que boba que eu sou.

O abraço foi longo e Marta soluçava.

— Eu não esperava... mas já sonhei diversas vezes com a senhora; e nestes sonhos te abraçava sempre que tinha chance.

— Toda oportunidade é uma chance. Ah, mas eu sei. Eu sei — disse Elaine agora sacudindo ambas as mãos da bisneta. — Ah, minha filha, fica sabendo que era eu. Nossa, eu estava lá no teu sonho, abraçando-te. Eu te amo, filha. Eu te amo.

— Tenho tanta coisa pra dizer pra senhora.

— Quando quiser, fala. Estarei sempre te escutando.

Marta enxugou as lágrimas. Elaine carinhosamente a ajudou.

— Mas hoje tens de me ouvir.

— Sim senhora.

— Vais receber uma visita.

— Outra?

— Hu-hum.

— Hoje é o dia das visitas.

— Pois é.

— Quem vai vir?

— És tu quem vais responder.

Marta disparou, meio assustada meio curiosa:

— O teu compadre?

Elaine sacudiu a cabeça desaprovando:

— Muito apressada — respondeu um pouco severa —, e ansiosa também. Assim não acertas. Teu coração parece um formigueiro. Concentra-te!

— Desculpa.

— Vamos lá, menina! Respira.

Marta fechou os olhos. Tomou fôlego inspirando profundamente e deixando o ar sair assim num sssssss prolongado. Enfim os olhos se abriram descontentes:

— Ah... ele...

— Bom. Ao que vejo, agora já sabes.

Marta deu um passou para trás:

— Mas o que ele vem fazer aqui, me violentar também?

Sem alterar sua aparente serenidade, Elaine deu-lhe uma leve bofetada.


[Continua...]
LEÃO NEGRO
A busca pelo vampiro Luar
Um romance de KIZZY YSATIS

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011


Aqueles que habitam o Paralelo Noturno


X - Marta recebe uma segunda visita.

Um Claudio meio frustrado deixa o edifício e desce a avenida pedalando.

Na cozinha de seu apartamento, Marta seca a louça e então para, uma brisa a surpreende. Ela fecha os olhos e inspira vagarosamente. Marta havia se acostumado com o perfume da orquídea, que precede a presença mágica e invisível de uma antepassada sua em especial. O perfume mistura-se ao cheiro de cigarro e livros velhos.

Que dia, pensou. As coisas estavam acontecendo tão rápido. Era a segunda visita que recebia naquele dia. Mais que depressa, abandonou os afazeres triviais, enxugou a mão e virou-se. Estava só. Olhou ao redor e começou a caminhar devagar e sem medo, apenas curiosa. Concentrou-se para ouvir alguma voz, procurou por algum sinal. Nada. Uma mariposa entrou pela vidraça tão veloz que a pegou de surpresa. Um pequeno susto. O inseto noturno rodopiou três vezes antes de se dirigir a sala. Ela o acompanhou. Olhou direto na poltrona de couro. A sala estava vazia, nada de mariposa. Onde estava? A janela da sala continuava fechada. O ruído de um isqueiro a fez se virar num reflexo. Uma senhora elegantemente trajada de preto, sentada na velhíssima poltrona, tragava seu cigarro. Marta arrepiou-se inteira, era a primeira vez que a via fora de seus sonhos. Sabia quem era. Isso a emocionou a ponto de deixar os olhos rasos d’água. A senhora a olhou com benevolência e sorriu. Sua voz era firme e sussurrante:

— Senta, minha filha. Precisamos conversar.



[Continua na terça]
LEÃO NEGRO
A busca pelo vampiro Luar
Um romance de KIZZY YSATIS

terça-feira, 28 de setembro de 2010


Aqueles que habitam o Paralelo Noturno


II - Hakozen


Às 18h00 começa a escurecer em São Paulo. A hora é crítica. O trânsito engasga com mil engarrafamentos. Ônibus e trens disparam cheios, e centenas de milhares de cidadãos estressadíssimos viajam para casa depois da longa jornada de trabalho. Este inferno ocorre todos os dias. Os vampiros despertam; os lobisomens aguçam seus sentidos; as bruxas, ao meditar, respiram profundamente enquanto os sinos de algumas igrejas badalam o ângelus. É quando as sete portas do mistério se abrem. Os anjos atravessam. E o reino do Paralelo Noturno tem início. Este inferno reabre todos os dias.


Os motoqueiros, assim como os ciclistas, têm a vantagem de poder ultrapassar carros parados no trânsito. Na Avenida Lins de Vasconcelos, um ciclista avançou sobre a calçada, chegando ao endereço pretendido. O homem, beirando os 30, desmontou da bicicleta, removeu o capacete e tocou o interfone do edifício. Arfava de cansaço e suava de ansiedade. Não avisou quem ia visitar, nem sequer sabia se a velha amiga ainda morava no local. Mas soube no seguinte instante, quando o porteiro o atendeu pelo interfone:


— Pois não?


— Vou ao apartamento 77. Mas antes eu queria saber se...


— Seu nome é Claudio?


— Isso mesmo.


Enquanto o portão da garagem se erguia, Claudio balançava a cabeça sorrindo.


Sétimo andar. O post-it na porta indicava outro rumo: “Querido, estou no telhado. Amasse o papelzinho e suba!”


Claudio nem se atentou ao laranja-fogo no céu. Assim que saiu no terraço, buscou pela amiga e a avistou mais adiante, perto do para-peito, a admirar o pôr-do-sol. Ela estava de costas mas Claudio a reconheceu pelo cabelo. Não pelo corte (antes comprido e agora curto), mas pela cor. Aquele tom inconfundível. Quando ele a viu pela última vez, havia somente uma mecha rubra. Agora, todo cabelo era vermelho e sua postura também era outra. Talvez não fosse mais a mesma mulher. E na verdade não era. Claudio queria ver seu rosto e até concordaria com certo poema de Henriqueta, se o conhecesse. Ao menos um trecho: Quem viu o rosto da Sibila? Quem se arriscou ao fundo do poço à procura de humanos traços? Talvez ela não tenha rosto: é múltipla inumerável.


— Marta, nem preciso mais ligar pra você.


Marta falou com distância, levemente melancólica:


— Não se pode surpreender uma sibila rubra.


— Quanto mais a matriarca, estou certo?


— Sim, e sou a última... mas isso também não importa agora.


Ela se virou para vê-lo. Abriu os braços e um sorriso:


— Olha só você, Claudio. Há quanto tempo!? Vem cá e me dá um abraço.


— Uau! Como você mudou!


Ele caminhou em sua direção mas brecou ao notar o círculo branco no chão em torno dela; em seguida, o pequeno caldeirão de ferro com três pés, liberando uma chama azul e tímida, meio aflita com o vento; e, por fim, um hakozen, que Claudio deduziu ter sido usado como altar improvisado, cujo interior provavelmente escondia objetos mágicos recém utilizados ao invés de comida japonesa.


— Anda praticando, hein?!


— Posso dizer que me formei recentemente, mas nada que o Harry Potter não faria.


Claudio, que até então sorria, logo ficou tenso. Nunca presenciara a amiga manipulando magia. Obedecendo a um gesto gracioso da bruxa, a chama se apagou e um vento rasteiro varreu com força o sal que antes formava o círculo. Então ele se acercou para se abraçarem.


— Hum. Você ficou musculoso, mas ainda fuma.


Ajeitando os óculos, Claudio a encarou com uma careta debochada:


— Adivinhou isso também?


— Não, querido. Isso se descobre com um abraço e um cheiro. Me responda uma coisa: mudei pra melhor ou pior?


— Pra melhor.


— Ainda bem, senão te transformava num sapo!


Marta estava brincando, mas Claudio olhou preocupado para o hakozen. Ela notou e levou a mão no queixo, envergonhada.


— Ah, Claudio, me desculpa, nem te ofereci nada. Você deve estar com fome. Tem dois sanduíches e um suco de caixinha dentro da mesinha japonesa.


Ele a encarou outra vez, agora com espanto:


— O quê? Trouxe sanduíches dentro do hakozen?


— Sei que adora comida japonesa. Eu até que tentei enrolar uns temakis mas ficaram um desastre. Ah, mas o que esperava, um banquete de boas vindas?


Aliviado, Claudio balançou a cabeça:


— Não, esquece. Eu viajei. Vou pedir uma pizza, temos que conversar serio.


— Eu sei.


Ela o abraçou novamente e começou a chorar. Ele não suportou e chorou também. Pela primeira vez, puderam expressar suas tristezas um ao outro. Era uma tristeza que pesava neles desde que eventos ocorridos anos atrás transformaram drasticamente suas vidas e separaram seus caminhos.






[Continua na próxima terça]


LEÃO NEGRO


A busca pelo vampiro Luar




Um romance de KIZZY YSATIS

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

LEÃO NEGRO - A Busca pelo vampiro Luar

Dias atrás, assisti a um filme chamado Julie & Julia; no qual Julie se propõe, em seu blog, a fazer certo número de receitas da Julia no prazo de um ano. Fiquei imaginando se eu conseguiria terminar o desfecho da trilogia de O Clube dos Imortais neste prazo também, levando em consideração que já tenho alguma coisa escrita; que parte dos personagens já tem alma, de modo a poupar tempo na criação e pesquisa: parte demorada do trabalho que já foi feita no desenvolvimento do Clube e do Diário da Sibila Rubra.

Quem acompanha meus livros, sabe quem é o vampiro Luar, o que ele quer e com quem está envolvido; sabe quem são as Sibilas Rubras, o que fazem e de onde vieram; e sabe também qual é o papel dos lobisomens e dos anjos no enredo, está tudo lá. O que vai ocorrer neste episódio final, já está definido; parte em resumos e roteiros já digitados parte em anotações de idéias feitas em bloquinhos esparsos. Estou na pré-produção. Será que eu me proponho tal prazo?

Não é minha natureza obedecer regras, mas preciso recuar se quiser deixar pra trás a pessoa que eu era e experimentar novos eus. Afinal, não somos uma pedra, e nem com a morte paramos de nos transformar e evoluir. Mas ainda não me decidi, vou pensar um pouquinho mais. Quem sabe vocês não me ajudam. ;-)

Até lá, deixo a sinopse do que vem por aí:

O vampiro Luar adormeceu há quase uma década, desgostoso com as revelações sobre o destino de Álvares de Azevedo obtidas com o Diário da Sibila Rubra. Desde então, seu trono está vago e suas terras agora são vigiadas pelos guardiões: uma alcateia fiel de cem lobisomens que se oculta sob a fachada de um reservado moto clube. Montserrat, um vampiro megalomaníaco e com sede ilimitada de poder, planeja invadir a mansão de Luar, subjugar os guardiões e reativar o extinto Clube dos Imortais. Montserrat crê que só assim se tornará senhor do Paralelo Noturno. Para isso, cria sua própria confraria de vampiros que vai eliminando os lobisomens, um por um. Marta, mulher por quem Montserrat é apaixonado, tornou-se a última das Sibilas Rubras, uma antiga dinastia de bruxas cuja origem remonta ao Império Romano. E Claudio, que jurou vingança contra Luar, finalmente descobriu um meio para vencer o poderoso inimigo, isso se o achar. A ópera final se aproxima e, para salvar Fausto (seu pai e líder da alcateia), a sibila rubra só vê uma saída: encontrar e despertar o mais temível dos imortais, o Leão Negro.