Estou de passagem neste mundo,

Mas deixo aqui o registro de minhas palavras.

Eu sou o peregrino do tempo.


quarta-feira, 30 de julho de 2008

AOS MEUS QUERIDOS AMIGOS E LEITORES

Eis neste post o convite do lançamento de meu segundo romance: DIÁRIO DA SIBILA RUBRA – O Retorno das Bruxas. Como poucos sabem, desde a época da Faculdade, onde fazia editoração, eu recebi o “chamado das palavras” e desde então tenho colocado em prática esse sonho que é um aprendizado diário e quase uma utopia: num país de poucos leitores, escrever é guerra contra a história.

Nesses últimos seis anos aventurei-me numa verdadeira jornada de instrução, pesquisa e introspecção, já que o oficio do escritor, como dizia Balzac, é árduo e solitário. Acreditem, estou feliz com meu caminho e não me vejo fazendo outra coisa. Em 2006 lancei o primeiro romance (Clube dos Imortais) e minha dedicação em reinventar o conhecido-desconhecido deu certo. Valeu-me um prêmio e o reconhecimento dos leitores. Agora, permeio o universo das Bruxas ao mesmo tempo em que faço um ensaio sobre a alma feminina e a dualidade do ser. Reescrevi o livro várias vezes até que ficasse harmônico tanto para mim quanto para os poucos artistas e técnicos severos que acompanharam o processo de criação. Fiquei muito satisfeito com o resultado. Consegui chegar além do que alcancei com o Clube dos Imortais.

Acredito em Da Vinci que dizia algo parecido com o que aqui reescrevo com minhas próprias palavras: “O trabalho que leva tempo para concluir, sobrevive à morte de seu criador.” Hoje dedico a vida a esse propósito. Não estou aqui para posar de escritor, simplesmente levo muito a sério o belo ofício.

Está chegando o grande dia e convido todos vocês a dividirem esse momento de alegria e glória comigo, garanto que não sairão perdendo. Vamos prestigiar a Bienal, lá eu marcarei presença e conto com o prestígio dos amigos e leitores. Sem vocês a festa não será completa. Aproveitando, tomo liberdade de pedir para que ajudem com a divulgação. Aqueles que quiserem colaborar, por favor, copiem a imagem maior do convite no template e convidem todos os seus amigos da lista de e-mail. E quem tiver blog, ficaria agradecido se postassem essa imagem juntamente com a sinopse. Não sou um escritor com recursos para bancar propaganda e minha editora faz o que pode, já que nem sou um autor muito conhecido, mas sei que o Clube dos Imortais tem chegado de conta-gotas de norte a sul do Brasil, pingando aqui e acolá através do boca-a-boca, ou seja, os que lêem emprestam ou recomendam o livro. Isso eu acho fantástico; e considero muito importante ver que meu trabalho, pouco a pouco, cumpre sua missão. Humildemente, agradeço de antemão a atenção e o apoio.

Estou de passagem neste mundo, mas abandono aqui o registro de minhas palavras.
Eu sou o peregrino do tempo.

Abraços cordiais
Kizzy Ysatis


PARA OS AMANTES DO SUSPENSE E DA LEITURA

LANÇAMENTO DO ROMANCE

DIÁRIO DA SIBILA RUBRA, O Retorno das Bruxas


SINOPSE:


AMOR, MORTE E MISTÉRIO NA ILHA DAS BRUXAS. Elaine é uma jovem sibila rubra que está aprendendo que para crescer é preciso pensar nas conseqüências antes de fazer as próprias escolhas. Ao mesmo tempo surge uma ameaça capaz de pôr fim a antiga Ordem a qual pertence. Apostando que assim garantirá a vitória, resolve se aliar a um mal ainda maior: o vampiro Luar

SÁBADO, DIA 16 DE AGOSTO ÀS 14 H

NA BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO 2008

NO ESTANDE DA NOVO SÉCULO EDITORA

PARQUE DE EXPOSIÇÕES ANHEMBI

Av. Olavo Fontoura 1.209 – Ônibus gratuito na estação Tietê do metrô

segunda-feira, 28 de julho de 2008

clique na imagem para ampliar

DIÁRIO DA SIBILA RUBRA - O Retorno das Bruxas
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Versão final da capa!

terça-feira, 15 de julho de 2008


TROCA DE E-MAILS COM UMA LEITORA


Olá, Kizzy! Tolamente, eu espero que essa mensagem não se perca em sua caixa de entrada de e-mail. Talvez existam dezenas, ou centenas de mensagens iguais ou melhores que essa que eu escrevo, mas, mesmo assim, há em mim uma pequena esperança de que a leia. De que dê a ela apenas um pouco de sua atenção.


Não faz nem quinze minutos que acabei de ler a última página do Clube dos Imortais. Assim que o vi, na livraria, me interessei. Não apenas por se tratar de vampiros, tema que exerce profundo fascínio sobre mim, mas por ser de um escritor brasileiro. Mais acostumada às obras vampirescas de Anne Rice, encenadas em distantes Europas, fiquei feliz ao poder ler algo mais próximo da minha realidade e, ainda sim, tão palpável.


É claro que por gostar do gênero, já experimentara antes obras do André Vianco. Mas devo admitir que não me cativaram como eu gostaria. Não como na sua obra. Talvez porque em seus escritos poéticos, Kizzy - se é que me permite chamá-lo dessa forma -, os vampiros não sejam apenas inimigos, ou mesmo monstros. Não, a monstruosidade é apenas uma faceta de seu caráter, e acabamos nos apaixonando também por sua minguante humanidade, tão mais sensível, tão mais profana, tão mais autêntica.


Outro fato que me pegou desprevenida e me fez amar o livro desde o começo foi a profusão de poesias e trechos belos, trágicos e, por vezes, mórbidos. E a constante presença de meu poeta preferido, Álvares de Azevedo! A citação de "Meu Sonho", que adoro entoar de cor pelos cantos, foi um júbilo para mim. Mesmo porque, nos modestos textos que escrevo em meu computador, já usara esse mesmo e maravilhoso poema em um conto sobre vampiros. Para mim, ele soa como o próprio hino da espécie, sua essência, por assim dizer. O delírio fatal, não é mesmo?


Realmente, fui cativada pela saga de Luar, o pobre e torturado Raul, que às vezes me fazia odiá-lo - principalmente através das recordações de Patrícia -, outras me obrigava a amá-lo, como se eu, assim como Luciano, também fosse embargada por seus discursos eloqüentes, sua retórica deliciosa e seu fascínio imortal. A cena onde ele dançou no Madame Satã pareceu ganhar vida em minha mente.


E cada um dos personagens ganhou vida através de suas palavras. Luciano e seu ceticismo apaixonado, lutando contra uma devoção pelo vampiro ainda mais forte. Cláudio, que me surpreendeu, tornando-se no fim, ao menos em minha imaginação, onde a história nunca termina, um legítimo caçador. Marta, que revelou-se muito mais do que se podia esperar, uma sibila rubra. Montserrat, que deu continuidade ao eterno ciclo profano da vida e da morte. Fausto, que me fez sorrir a cada vez que surgia, com ares de velho em seu corpo tão jovem, e maneiras tão finas, requintadas, fiel até o final. Patrícia, que revelou-se uma mulher, sibila e vampira tão ou mais forte que o próprio Luar.


Creio que, para o poeta, a maior satisfação, deve ser saber que aquela parte de si que foi traduzida em tinta sobre o papel alcança o patamar da imortalidade. Sim, pois, um livro pode ser queimado, esquecido ou simplesmente perder-se nas espessas brumas do tempo. Mas uma história que algum dia emocionou aquele que a leu ou a ouviu, alcança a proeza de viver para sempre. Diferente para cada um que a conheceu, mas eterna em sua essência. Para um poeta a vida nunca termina de fato. Essa é a verdadeira natureza de um poeta, creio. Imortal e viva em cada um dos que se alimentaram de sua arte, um pedaço de sua própria alma.


Foi um prazer ler o seu livro. E é ainda mais prazeroso poder expressar meus sentimentos sobre a obra dessa forma. Eu não espero uma resposta, porque o fascínio genuíno por um bom livro, ou por qualquer outra coisa na vida, é dessa forma. Verdadeiro, até simplório. Quase platônico. Simplesmente está feliz por poder expressar-se, sem esperar nada em troca. Apenas ficaria contente se lesse esse meu e-mail, sabendo que gostei muito do seu trabalho.


Adoraria ver mais livros como O Clube dos Imortais nas livrarias. E acho que o prêmio que ganhou foi mesmo muito bem merecido. Uma história bela, poética, tão bem estruturada, sustentada por apenas uma cruel e bela máxima: "O amor está acima do bem e do mal". E, de fato, o amor está lá presente em cada ato. De forma egoísta, como o amor por si mesmo que Selton sentia; ou de forma trágica, como o amor intenso de Raul por Álvares e, posteriormente, Luciano. No amor de Marta, profundo e fraternal; de Cláudio, vingativo e sem temores; de Patrícia, doloroso e contraditório; de Fausto, fiel e solitário.


Você escreve muitíssimo bem e, certamente, assim como A Fazenda Blackwood, de Anne Rice, o Clube dos Imortais vai também influenciar meus próprios contos vampirescos, embalados, como eu já comentara anteriormente, pelo ultra-romantismo de Álvares de Azevedo, e por todas as crônicas de vida, morte, amor e sangue que eu já tive chance de experimentar nos meus dezessete anos, seja em minha vida ou na ficção.


Tudo o que eu posso fazer, então, é agradecer. Obrigada!


Sinceramente,


Fiat Noctum. (Meu próprio e jovem pseudônimo, advindo do amor ao latim).

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Caríssima

Quase, em detrimento ao seu rogo, quase eu apaguei seu e-mail sem ler. O título estava claro para não ser percebido e não recebo centenas de e-mails de leitores como imaginou; eles pingam aqui e ali semanalmente na minha caixa de correio ora rasos, ora profundos (como o seu) e todos eles me estragam com críticas elogiosas que me põe a perigo de me achar bom o suficiente.

Acredite, nunca, nunca se está bom o suficiente (esse pensamento é encorajador e nos salva do ego mentiroso que, se não for domado, assassina o talentoso); e por fim creio que nem todos que lêem se prontificam a escrever.

O fato é que seu e-mail estava enturmado com uns spans que apago num tiroteio de clicar sem ver.

Alegra-me tê-lo visto a tempo porque me emocionei ao lê-lo. Não há júbilo maior para o artista que o reconhecimento do público; e melhor quando este triunfa em se expressar de forma tão bem articulada quanto você fez. Seu e-mail é uma das cartas mais apaixonadas que recebi sobre o Clube dos Imortais, a nova quimera dos vampiros e no final espantou-me por descobrir que você, com apenas 17 anos, escreve tão bem. Há futuro para o Brasil. Por esses motivos todos é que peço sua permissão para publicá-lo em meu blog, mas asseguro-lhe que seu endereço eletrônico será resguardado.

Obrigado!

Abraços cordiais,

Kizzy Ysatis

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Olá mais uma vez!

Bem, primeiro perdoe-me pela extensa demora por essa resposta. Minha justificativa é simplesmente a imprevisibilidade das máquinas: Meu computador quebrou um dia depois de ter-lhe enviado aquele primeiro e-mail. Mas eu jamais deixaria de responder, de qualquer forma!

Você não tem idéia o quanto eu fiquei feliz ao ver sua resposta! Eu, de fato, não esperava por uma, apenas torcia silenciosamente para que você tivesse recebido meus elogios (que são muito merecidos, não importa o que diga).

Eu adoraria ver meu e-mail em seu blog! Seria, de verdade, uma honra! Muito obrigada pelo que disse, fiquei realmente muito feliz de ler. Poderia me passar o endereço de seu blog? Eu vou visitá-lo sempre que puder!!

Mais uma vez muitíssimo obrigada!! Fiquei exultante ao ler sua mensagem! É muito bom saber que grandes autores estão mais próximos do que se pensa, não em algum imaginário distante. É bom saber que são pessoas de carne e osso com as quais podemos conversar, mesmo que por alguns instantes apenas. De certa forma, é encorajador. Inspirador. E por isso eu agradeço muito!

Fiat Noctum.

....................

Fiat Noctum.


Agradeço mais uma vez pelo carinho. Nossa conversa foi publicada. O endereço do meu blog é:

www.kizzyysatis.blogspot.com

Apareça sempre que quiser e por favor nos deixe um comentário sempre que puder.

Abraços cordiais
Kizzy Ysatis




sábado, 12 de julho de 2008

sexta-feira, 4 de julho de 2008

COMING SOON
2009



Declaração de Kizzy Ysatis sobre o atraso da Tríade

Épico escrito por Carlos Andrade, Claudio Brites e eu (Kizzy Ysatis) nos anos de 2005 e 2006 e que ficou abandonada em 2007. Agora ganha um novo reforço, Octavio Cariello, que reescreverá o texto e acrescentará seu talento. O projeto é antigo e foi muito pensado, mas a incoerência de tempo atrapalhou o andamento inicial. Poderíamos terminá-lo imediatamente e publicar, mas não é do nosso estilo publicar livros apressados de infelizes resoluções e personagens anêmicos. Portanto, preservando nossa arte e em respeito ao público que gasta seu sagrado dinheirinho para comprar bons livros, nossa previsão é que saia no segundo semestre de 2009.

Deixarei abaixo um texto de Carlos Andrade, idealizador do projeto.

Como surgiu a Tríade?


É complexo dizer como uma idéia surge. Como professor, por muitos anos, procurei instigar os jovens a escrever, buscando formas diversas de criar oportunidades para a sua realização. No entanto, tudo que escrevi até o momento estava relacionado à produção acadêmica do conhecimento em minha área, embora tivesse vontade de me voltar para a produção literária. Fui sempre um apreciador da ficção e, numa noite, sonhei com três personagens que me fascinaram em minhas leituras: um Anjo, um Cavaleiro Templário e um Vampiro. Ao acordar sobressaltado e envolto nas imagens que ainda se refletiam do sonho, pensei em escrever sobre elas – surgiu então a TRÍADE ©.

Convidei os escritores Claudio Brites, Kizzy Ysatis e, recentemente, Octavio Cariello para compartilharem comigo desse projeto. Assim cada um de nós assumiria um papel; visões diferentes que se envolveriam numa trama densa do século XIV.

Parece não haver coerência na união dessas personagens. Elas sempre permearam espaços próprios ou singulares. Agora é a hora do encontro. Você pode imaginar o que poderá resultar desse encontro?

A Tríade entrará em cena brevemente e aproveitamos o momento para convidar-lhe, desde já, a conviver conosco nesse mundo no qual o consciente e o inconsciente se tocam; passado, presente e futuro se mesclam e o imaginário é construído como reflexo dos anseios e sonhos humanos.

quarta-feira, 25 de junho de 2008


Sim, sou eu na foto: clique para ampliar. Quem não muda, caduca (essa acabei de inventar)
kizzy ysatis

sábado, 21 de junho de 2008


As Horas Nuas

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É inefável qualquer tipo de resenha para explicar As Horas Nuas, romance de Lygia Fagundes Telles publicado em 1989 que (mais que merecido) arrebatou o prêmio Pedro Nava de Melhor Livro do Ano. Se é inefável, vou me ater ao próprio com uma ou duas gotas de seu oceano de misteriosa prosa da subjetividade humana.
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“acho deslumbrante ver o Bem e o Mal – com letra maiúscula – confundidos numa coisa só, cozinhando no mesmo caldeirão. (...) Mas parece que a graça está na meia-luz. Na ambigüidade”
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Notou os artifícios? Nem eu. Não precisa, ela é legítima, e assim legitima a literatura brasileira.
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“E os homens e mulheres olhavam para ele com respeito porque a beleza exige respeito”
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E assim nessa ambigüidade, nesse meio tom, que vai indo horas e horas dos personagens profundos dos quais a autora faz uso para expor a alma humana, expõe despudoradamente, e também denuncia a sociedade e a época. O texto é intimista ao extremo e prima pela narrativa arrastada que não cansa, pelo contrário, delicadamente vamos penetrando no cotidiano das personagens redondíssimas e em seus dramas existenciais, desenvolve história e personagens com confissões das mais íntimas, eu disse íntima? Olha eu repetindo. A narrativa briga com narrador para ver quem é mais real ou extraordinário. Rosa Ambrósio, a Rosa Rosae: atriz decadente que se fecha no seu apartamento milionário para se afogar no whisky que ou esconder-se na fumaça dos cigarros inúmeros e lembranças, peças do quebra-cabeça tão intrincado que acaba se mostrando um belo quatro, e que belo quadro temos aqui. Rosona lamenta-se enquanto tinge os pelos pubianos, mas nos conta que nem sempre sua vida foi fútil. Há o passado nas horas. E há também o seu gato narrando o que ninguém sabe e o que ninguém viu, às vezes ninguém o entende, de modo que lambe o cu com raiva e amor, só ele sabe os segredos daquela casa, mas é testemunha muda, não consegue contar, da sua boca salta o miado que dá origem ao seu nome, Rahul, mas calma, os leitores tem livre acesso aos seus pensamentos, suas lembranças de encarnações passadas, lá longe, na Roma antiga; e a descrição dos fantasmas que só ele vê. O surrealismo também habita nessa realidade, acaso o caviloso homem do sétimo andar que só chega junto com a noite, não é ele que se metamorfoseia em cavalo? Ora minha gente, não percam mais tempo lendo isso aqui, não vou dizer mais nada. Leiam As Horas Nuas e desfrutem de boas horas na companhia de um senhor livro. Palmas para Lygia. Faço das palavras do prêmio Nobel da literatura, José Saramago, as minhas quando ele assim revela:
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“Os livros de Lygia, afago com os olhos as páginas tantas vezes soberbas. Releio uma vez mais, palavra a palavra, sílaba a sílaba, saboreando ao de leve a pungente amargura daquele mel”
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SOBRE A AUTORA
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LYGIA FAGUNDES TELLES nasceu em São Paulo, mas passou a infância no interior do estado, onde o pai, o advogado Durval de Azevedo Fagundes, atuou como promotor público. A mãe, Maria do Rosário (Zazita), era pianista. Algumas das pequenas cidades percorridas nessa infância instável: Sertãozinho, Itatinga, Areias, Assis, Apiaí e Descalvado. Voltando a residir com a família em São Paulo, a escritora fez o curso fundamental na Escola Caetano de Campos, e em seguida ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo, onde se formou. Quando estudante do pré-jurídico, cursou a Escola de Educação Física, da mesma universidade.
Lygia Fagundes Telles teve um filho do primeiro casamento, o cineasta Goffredo Telles Neto, que lhe deu duas netas, Lúcia Carolina Aidar da Silva Telles e Margarida Goreki da Silva Telles. Divorciada, a autora casou-se com o ensaísta e crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, falecido em 1977.
Segundo o crítico literário Antonio Candido de Mello e Souza, no texto "A nova narrativa brasileira", o romance Ciranda de pedra (1954) seria o marco de sua maturidade intelectual. Vivendo a realidade de uma escritora do Terceiro Mundo, LFT considera sua obra de natureza engajada, ou seja, comprometida com a difícil condição do ser humano num país de tão frágil educação e saúde. Participante e testemunha deste tempo e desta sociedade, a escritora procura através da palavra escrita apresentar esta sociedade e este tempo envolto na sedução do imaginário e da fantasia. Em seu romance As meninas (1973), ela registra uma posição de clara recusa ao regime militar. Em 1976, fez parte de um grupo de intelectuais que foi à Brasília entregar um importante manifesto contra a censura, o Manifesto dos Mil.
Membro da Academia Brasileira de Letras, Lygia Fagundes Telles já foi publicada em diversos países: França, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Holanda, Portugal, Suécia, República Checa, Espanha, entre outros –, com obras adaptadas para TV, teatro e cinema.


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LIVROS PUBLICADOS PELA EDITORA ROCCO

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Ciranda de pedra (romance, 1954)
Verão no aquário (romance, 1963)
Antes do baile verde (contos, 1970)
As meninas (romance, 1973)
Seminário dos ratos (contos, 1977)
A disciplina do amor (ficção e memória, 1980)
Mistérios (contos, 1981)
As horas nuas (romance, 1989)
A estrutura da bolha de sabão (contos, 1991)
A noite escura e mais eu (contos, 1995)
Invenção e memória (ficção e memórias, 2000)
Durante aquele estranho chá (ficção e memória, org. Suênio Campos de Lucena, 2002)
Meus contos preferidos (antologia de contos, 2004)
Meus contos esquecidos (antologia de contos, 2005)
Histórias de mistério (coletânea de contos, 2004)
Conspiração de nuvens
ROTEIRO DE CINEMA
Capitu (1999), escrito em parceria com Paulo Emilio Salles Gomes e inspirado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, incluído no catálogo da Editora Cosak & Naify.
ANTOLOGIAS
Os melhores contos de Lygia Fagundes Telles, seleção de Eduardo Portella, Editora Global (1982).
Venha ver o pôr-do-sol e outros contos, Editora Ática (1997).
Oito contos de amor, seleção de Pedro Paulo Sena Madureira, Editora Ática (1997).
Pomba enamorada e outros contos escolhidos, seleção de Léa Masima, Editora LPM (1999).
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PRÊMIOS

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Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras (1949)
Instituto Nacional do Livro (1958)
Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por Verão no aquário (1965)
Grande Prêmio Internacional Feminino para Contos estrangeiros, França (1969)
Guimarães Rosa (1972)
Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras, Jabuti e APCA – Associação Paulista dos Críticos de Arte, pelo romance As meninas (1974)
PEN Clube do Brasil, para o livro de contos Seminário dos ratos (1977)
Jabuti e APCA, para A disciplina do amor (1980)
II Bienal Nestlé de Literatura Brasileira (1984)
Pedro Nava, Melhor Livro do Ano, para As horas nuas (1989)
Jabuti, Biblioteca Nacional e APLUB de Literatura, para A noite escura e mais eu
Jabuti e APCA, para Invenção e memória (2001)
Prêmio Camões (o maior prêmio da língua portuguesa), pelo conjunto da obra, Portugal – Brasil (2005)
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Ah, acabou de ganhar mais um prêmio quentinho. Não é possível (risos) ela deve ter um quarto em sua casa onde guarda todos esses troféus.
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APCA premia os maiores talentos da arte brasileira em 2007
Escritora Lygia Fagundes Telles vence a categoria na categoria livro de memórias com 'Conspiração de Nuvens' (esse é seu mais recente livro)
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Aplaudida de pé, "a grande dama da literatura", aos 85 anos, disse que "as nuvens também conspiram, cuidado!" assim como "outros amigos" para ela poder ser "lembrada pela segunda vez pela associação", que já a havia premiado anteriormente pelo livro As Meninas. A escritora finalizou seu agradecimento na noite de segunda, 5, citando versos de Castro Alves:
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"Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!"


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domingo, 15 de junho de 2008

Eu sou o Amor que não ousa dizer seu nome
Por Kizzy Ysatis


Quem gosta de U2 sabe que o famoso cantor, ativista e desbocado Bono nasceu em Dublin, mas antes do astro pop veio outro nascido ali também. Oscar Wilde. Que veio ao mundo na Dublin do ano de 1854 e morreu na Paris de 1900 e lá encontra-se enterrado no Père Lachaise junto de Zola, Balzac, Proust, Victor Hugo e até Jim Morrison, vocalista imortal da banda The Doors. Ouvia muito falar em O Retrato de Dorian Gray, mas eu mesmo nunca havia lido, apesar de tê-lo em minha humilde biblioteca. Foi na faculdade que o livro me chamou uma vez mais (pois os livros nos chamam, jamais duvide) quando a professora comentou minhas vestimentas retrô: sapatinho com fivelas e meias até os joelhos, calça corsário e sobretudo substituindo a antiga sobrecasaca; o colete, no entanto, era dos antigos, comprado em brechó. Alto como sou e dentro de trajes de dândi, disse-me ela que lembrei Oscar Wilde. Estávamos em idos de 1998 e qual não foi sua surpresa quando lhe disse que não o conhecia. Para ela eu havia me inspirado no próprio, mas já que eu não conhecia, sugeriu que conhecesse, tinha certeza de que gostaria muito e talvez estivesse vivendo o momento ideal para adorá-lo com mais fervor (olha aí o chamado de novo, pois dizem que lemos os livros na hora que devem ser lidos) mas se eu fosse daqueles dados ao desconhecimento do prazer da leitura, ainda havia o filme na videoteca da faculdade: Wilde (1997) com Stephen Fry, Jude Law e Vanessa Redgrave, esta última no papel de mãe de Wilde, também brilha no papel de Mrs. Dalloway na adaptação para o cinema do clássico de Virginia Woolf. O filme sumiu, foi o que disse o moço da videoteca, Mas você acha o livro na biblioteca. Não quero, o tenho em casa, muito obrigado. Droga. Queria ver o filme, não que agora não estivesse interessado numa leitura do livro que me chamava, mas havia em questão mil livros a serem lidos naquele semestre para devidos trabalhos universitários. Uma imagem fala mais do que mil palavras, e ainda tem a trilha sonora, algo que me apego em filmes, se a trilha for boa o filme emociona mais. Na verdade a velocidade do filme e o tempo que dispunha eram os fatores relevantes. Os anos foram passando e, entre um livro e outro, lia Oscar Wilde. Desde a primeira leitura me tornei devoto, comecei com Dorian, desfrutei e o homenageei, usando mais tarde como referência para a feitura do Clube dos Imortais, a fisionomia de Luciano, cujo tipo belo, louro e de olhos azuis, não era apenas semelhante ao de Dorian Gray como também ao Luciano de Rupembré de Balzac, desse tipo do chamado imperialismo estético em cujo mocinho é belo e o vilão, feio. Dorian, é vilão, é lindo, mas a feiúra vai toda para o retrato. Sim, vali-me do mocinho belo desses moldes, mas troquei o vilão feio por um mais lindo que a lindeza, como imagino o vampiro Luar nos meus sonhos. Também desse molde, acredito (não tenho confirmação) tenha se valido a Sra. Anne Rice para criar seu Lestat; pois como meu Luciano, ou o Luciano de Balzac ou o Dorian de Wilde, seu mais famoso vampiro, afinal, tinha o mesmo tipo: beleza impar e feminil; olhos azuis; cabelos louros com cachos até os ombros. E nesses personagens havia a passagem do ingênuo ao lascivo, da pureza à maldade ou aos vícios através das paixões da sociedade. Por isso quis eu que meu vampiro Luar não fosse assim louro, quis que fosse moreno, tanto de cabelo quando dos olhos, a contrastar com o alvor da pele de donzela do romantismo. Resgatei nele o tipo do herói byroniano e o próprio Dracula que era igualmente moreno e cabeludo. Também quis que o aspecto de meu vampiro remetesse às perucas negras cacheadas do período da restauração. Aquela juba coroando os leões da aristocracia. Os nobres afetados maquiados como boneca, havia qualquer coisa de assustador naquilo. Li várias obras de Oscar Wilde e ainda há o que se ler, mas nenhuma fascina tanto quanto seu único romance, O Retrato de Dorian Gray. Talvez a única coisa que tenha me fascinado mais, fosse seu autor: Oscar Wilde, desde já comprei (no sebo, pois ainda sou podre e não dá para comprar todos os livros na livraria) assim então desde já comprei a biografia de Wilde escrita pelo próprio filho, Vyvyan. Ali descobri Wilde, o primeiro artista pop do nosso tempo. Wilde, o último dândi, o esteta, o filosofo da arte. O extravagante, belo e afetado Oscar Wilde. Tão querido que fez cair um cais com sua chegada na América tamanha quantidade de fãs a sua espera para a turnê do irlandês pelos Estados Unidos. Wilde, cuja voz só não impressionava mais que suas palavras na dicção única no modo ritmado e irônico com o qual as soprava nos salões causando êxtase aos comensais, apesar da maioria dos jornais ianques estarem dispostos a massacrá-lo, pois era Wilde apóstolo do esteticismo inglês. Esteta; que o Aurélio explica: pessoa que adota uma atitude exclusiva e requintada com relação à arte e à vida, colocando os valores estéticos acima de todos os outros. Por outro lado faz-se interessante transcrever sua descrição publicada pelo New York Tribune:
“O aspecto mais notável da aparência do poeta é sua altura, que ultrapassa de muito 1,80m, e o que depois chama atenção são seus cabelos, castanhos-escuros e compridos, caindo sobre seus ombros... Quando ele ri, os lábios se afastam e deixam ver uma fileira de dentes brilhantes, excepcionalmente brancos. A pele do rosto, em vez do tom róseo tão comum nos ingleses, é tão completamente destituída de cor que, dela, só se pode dizer que a cor lembra massa de vidraceiro. Seus olhos são azuis, ou de um cinza-claro, e em vez de serem ‘sonhadores’, como imaginavam muitos de seus admiradores, são brilhantes e rápidos – nem um pouco parecidos como os olhos de uma pessoa dada a devaneios perpétuos acerca de que é inefavelmente belo e verdadeiro. Em vez de pequenas e delicadas, adequadas para cariciar um lírio, suas mãos têm dedos compridos que, quando dobrados, formariam um punho capaz de desferir golpes duros, caso surgisse uma ocasião para que seu dono descesse a esse tipo de disputa... Uma das peculiaridades de seu modo de falar é que ele acentua suas frases a intervalos quase regulares, sem se preocupar com o sentido, talvez como conseqüência de um esforço para ser rítmico tanto na prosa como nos versos.”
Quando lhe perguntaram, na manhã seguinte, se ele tinha alguma coisa a declarar, respondeu: “Nada além da minha genialidade”.
Os norte-americanos recusaram-se a levar a sério àquele que seria chamado de o primeiro homem moderno.
Finalmente, depois de dez anos, o filme foi encontrado. O filme que não queria ser visto foi achado e meu amigo e prefaciador de Diário da Sibila Rubra, Claudio Brites, me presenteou com ele, surpreendendo-me pela película ter aparecido nas prateleiras. Passados dez anos: acho que fiquei tão íntimo de Wilde que o filme acabou não me mostrando aquele Wilde que gostaria de ver, aquele astro que manteve-se de bom humor sem perder o brio diante da chacota dos norte-americanos tão insípidos em sua época. Não ouso dizer que Wilde fosse à frente de seu tempo, a frase já tornou-se obsoleta, mas é certo dizer que ele seja atemporal, coerente para todas as épocas e em todas as épocas irá marcar presença. O filme de Brian Gilbert não está mal, mas optou por mostrar um Wilde apaixonado, logo, submisso ao cafajeste Bosie, que soube amar o dramaturgo ao seu modo, na interpretação do sempre reluzente Jude Law. O poema de Bosie, ou melhor, Lord Alfred Douglas, teve destaque maior que qualquer outro do próprio Wilde no contexto do filme. O poema intitulado Dois Amores, colocou em discussão a relação amorosa entre dois homens no tempo em que, na Inglaterra do fim do séc. XIX, isso era crime, e fez isso de forma primorosa e inteligente ao se valer da definição de São Paulo sobre a sodomia como “o pecado que não devia ser nomeado”. O poeta triunfa ao retirar a frase da periferia dos atos sexuais para colocá-la na sublimação do âmbito sentimental quando nos diz:

"Eu sou o Amor que não ousa dizer seu nome".

quarta-feira, 11 de junho de 2008

kizzy ysatis
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Cinqüenta anos de solidão
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O livro velho me contava Dickens e, sem querer, rasguei-lhe um centímetro de uma folha ao puxar, levianamente, uma linha da costura de sua encadernação. Afligi-me de culpa. Ora, pois tinha uma raridade em mãos que exigia carinho; mas o livro amarelo de páginas secas e quebradiças me confortou ao que disse, como o velho solitário quem era, disse-me que gostava de ser tocado de novo. Aprazia-lhe ter as páginas viradas por dedos quentes e, que feliz ele era por ser alisado por meus olhos negros. Disse-me, o tomo de David Copperfield, que preferia mil vezes desmanchar-se comigo a ter de se rachar aos pouquinhos na fria estante. Era seco porque às lágrimas leitoras já não lhe umedeciam as ternas folhas havia cinqüenta anos, nem mesmo o orvalho das gargalhadas a lhe coçar as letras. Por Deus! disse-lhe eu, Vem cá que sou todo seu.
Assim nos amamos durante as noites daquela semana. Ficamos amigos, e ri e chorei com ele até que voltou para estante, por hora satisfeito e refeito e à espera de um novo amante.
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Kizzy Ysatis
São Paulo, 09 de junho de 2008

segunda-feira, 9 de junho de 2008

DIÁRIO DA SIBILA RUBRA
O Retorno das Bruxas
Luar segurando orquídea, por Lese Pierre
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Prólogo em três partes
parte TRÊS:
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– Onde está teu gato preto? Tinhas um, não tinhas?
– Tinha! Baco se foi. Não o vejo desde a última Páscoa. Tem mais alguma pergunta medíocre para fazer? – diz ele com impaciência, mas agradece intimamente a troca de assunto.
Ela não responde. A dama é como todas de sua linhagem, as que foram, as que são e as que virão a ser. É atraente, ousada e, por vezes, insolente:
– Hum... Sempre bem vestido. “O vampiro Luar vestia-se muito bem, porém sempre aparecia de preto na maioria das vezes”. É assim que está escrito no livro. Bem vestido, porém sempre de luto. Por que será?
– É porque sempre morre alguém.
O tambor que precede chuva retorna; parece querer derrubar a casa inteira, mas tudo ainda é tão cinza. Eles não se movem. São feitos de algo mais sólido: tempo e conhecimento, dor e fúria. A intensa luz de um raio vem para alumiar determinadas e belas expressões. Ela, olhos grandes e atentos; só não brilham mais do que a força de seu ímpeto. Poderia matá-lo ali mesmo somente com a vontade se isso fosse possível e talvez fosse. Ele, estátua de pura brancura e pele reluzente como um elfo de Tolkien, mas com o rosto rijo que afasta para longe todo e qualquer vestígio de humanidade.
A batalha é travada olho no olho.
Pode se apaixonar por quem se odeia? Ela acredita que sim. A sacerdotisa, que de tão perto que está poderia beijá-lo, vira o rosto como se tomasse um tapa, já que as palavras dele, bem empregadas, surtiram efeito. Lembrou-se dos que morreram na estrada dele. Amargurada com o vampiro a feiticeira desce as escadas, devagarinho; arrasta no mármore dos degraus empoeirados a calda aveludada de seu vestido sangrento, obra de Valentino. De sobre a arca apanha o velho livro em percalina verde; grosso e envelhecido. Levanta a barra do vestido para caminhar, estendendo o livro, levando a ele como uma menininha.
– Ei-lo! Toma!
Os olhos do vampiro se preenchem de noite ardem ao vê-lo. Parece uma criança, não sabe se conter. Mas ele se segura em gestos micros a esboçar sentimentos que morrem em seguida ao recuperar o aspecto estatuado da atitude.
– É o diário de Elaine. É o que vieste buscar. Vamos, pega-o.
– Muito fácil. Não compreendo. Por que está me dando?
Ela ri.
– Não te dou, não é teu. Só quero que vejas. Abra-o. Tenta ler.
Ele obedece.
– Sangue de Baco! Mas que diabrura é esta? Está em branco!
Ela bate palma uma vez e diz:
– Enxerga primeiro que depois aparece.
Ele aperta os olhos e se concentra.
– Agora vejo palavras, mas não as compreendo.
– E jamais as compreenderá. E olha que está em bom português.
– Por quê? – pergunta ele, atônito.
Ela toma o diário de volta e se afasta.
– Não faz muito que escureceu e choverá durante quase a noite inteira – diz a dama ao sentar-se na puída poltrona de couro. Aqui, lança um suspiro de cansaço.
– Não me importo com a chuva – ele desdenha e depois esnoba: – Tenho poder sobre as tempestades e não faço questão de interrompê-las. Eu gosto! Agora poupe-me da ladainha e responda minha pergunta, strega!
– Eu sei das tuas capacidades e das tuas fraquezas, strigoi! Não ousa bancar o arrogante comigo! – responde ela com autoridade ameaçadora. Então apanha os óculos na caixa trabalhada sobre a mesa de centro.
– O que fará esta mulher? – ele se pergunta, baixinho.
Ela cruza as pernas com o livro no colo; ele a acompanha com olhos famintos, vendo-a abrir os óculos e os levar à face com aquela seqüência breve e simples de gestos naturais e costumeiros.
– O que vai fazer?
– A única coisa que posso e farei, criatura. Lerei o diário para ti e isso vai além do que mereces.
Enfim ele sorri. Balança a cabeça ao exato tempo em que diz:
– O senso de humor só funciona mesmo quando nos pega de surpresa.
– Não estou a brincar, moço. Desista. Não poderás levá-lo daqui. Nem sequer tocá-lo sem permissão. Atreva-te e o azar é todo teu.
Ele, que sempre ficou à vontade nas casas daquela família, permanece na escada como uma aparição; um monólito tal qual tivesse sido erigido ali mesmo e tem toda a semelhança de um Virgílio de Doré. Ele parece querer ignorá-la; parece que sofre estando na casa, nem ao menos a encara. Contempla e reflete. Divisa a janela, a dança efêmera do cortinado, a chuva que principia...
O que ela ganharia com isso? Surge a dúvida que o imortal não expressou. Mas ela, atenta ao momento, imagina o que pensa e sem saber acerta porque em seus pensamentos diz para si: “Se és tão esperto, por que não descobre?”.
– Não tem motivo para bancar a samaritana.
– Não queres que eu leia, eu não leio. Preocupas-te com o que vou lucrar com isso. Tens medo?!
– Não. Sou precavido. Você não é a primeira sibila rubra que conheço. Não subestimo nenhuma de vocês.
– Claro que não. Gato escaldado...
– As admiro. E respeito também.
– Sem dúvida!
– Senti um tom irônico?
– Escuta. O diário contém um encanto que te proíbe de ler, nosferatu. Somente aquelas de nossa família podem.
– Sobre isso acabei de ficar plenamente interado.
– Entretanto estou ciente das tuas manhas e artimanhas. Logo darias um jeito de saber o que tem aqui escrito.
– E daí...
– E daí que por isso economizarei nosso tempo, lendo de uma vez. Assim paras de me aborrecer. Creio que não te interessas ficar com o diário, queres apenas saber o conteúdo. A não ser que te enganes com o pensamento de que o diário seja um troféu teu. É herança de família. Saberias disso se tivesses uma, mas adoras encostar-te na dos outros.
Ele pisca lentamente. O lábio preto treme.
– Vais prometer deixar-me em paz. Lerei tudo o que nele há, então poderás partir, ainda haverá um breve espaço de tempo antes que se faça dia. Prometo não fazer trapaça. Eu já o li e não sei o que queres descobrir com este diário, boa parte da história já a conheces bem, és coadjuvante. Ainda que estejas no enredo, é uma história de bruxas, escrita por bruxa e narrada por outra. O que dizes?
– Digo, então, que é melhor que comece logo... Bruxa.