Estou de passagem neste mundo,

Mas deixo aqui o registro de minhas palavras.

Eu sou o peregrino do tempo.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

LEIA TUDO, POR FAVOR.

Vamos deixar bem claro aos cristãos menos esclarecidos e mal informados que a crucificação da transsexual não foi pra ofender a religião, o ato foi um pedido de socorro, foi pra lembrar que cristo também foi perseguido assim como os gays têm sido perseguidos por uma máfia religiosa, assim como os romanos perseguiram os cristãos no passado. Vamos esclarecer toda a gente pra não se tornar um cristão do mal, pra não se deixar manipular, pra não ser vítima de uma máfia de pastores gananciosos que só querem extrair montanhas de dinheiro dos fiéis, e pra isso esses pastores estão espalhando mentiras, medo, difamação, maldade, ódio e preconceito contra os homossexuais; vamos rogar aos cristãos pra que voltem a ser os cristãos do bem, que voltem a ser os cristãos de Cristo, aquele que, segundo a crença, espalhou apenas amor pelo mundo. Estou muito orgulhoso do amigo, o artista Dennis Dal Bello, foi ele quem fez a maquiagem perfeita que caracterizou a ativista transsexual que protestou na parada, gerando uma desnecessária polêmica ao representar Jesus de forma cênica, como muitos já fizeram sem causar esse alarde todo, nem essa injusta revolta. É uma babaquice o que tão dizendo... Não é ofensa nenhuma personificar Jesus cenicamente; o cinema faz, o teatro faz, os próprios católicos fazem, a madonna faz também. Pra eles (fundamentalistas que querem se aparecer) o problema foi uma transsexual fazê-lo. Então repudiá-la é preconceito deles. Vestiram a carapuça. A mensagem foi passada, o protesto foi bem sucedido. Parabéns a todos os envolvidos!
Do texto de Jean Wyllys, exalto os trechos: "Por que esses pastores e deputados-pastores e seu rebanho de ovelhas obedientes que não pensam não atacaram Neymar? Ora, pelo mesmo motivo que eles decidiram boicotar O Boticário por causa de uma campanha em favor da diversidade de relações afetivas" (...) "a preocupação dessa gente (os pastores) não é com valores verdadeiramente morais e éticos, mas tão somente com a perseguição sistemática de uma comunidade que é estratégica em seu avanço sobre as pessoas e a política por meio da exploração comercial da fé e dos medos que rende fortunas que, de tão obscenas, já foram parar na capa da Forbes!" (...) "Na falta de um repertório cultural mais amplo e da capacidade de pensar criticamente e de discernir; contaminadas pela estupidez disseminada na internet por fascistas apedeutas e vigaristas ocupados na exploração comercial da fé alheia; e interpeladas em seus preconceitos anti-homossexuais históricos e arraigados, as pessoas só poderiam mesmo embarcar nessa celeuma homofóbica, escrevendo seus insultos contra LGBTs e suas declarações de apoio aos canalhas manipuladores - sim, porque, na cabeça dessa gente, é mais grave uma recriação artística da crucificação de Cristo do que o uso do nome de Jesus para vender falsos milagres e vassouras ungidas e para pedir a senha do cartão de crédito de fiéis."
É isso.
Pense!
Liberte-se!
Ame!
Luz pra todos!


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Dona menininha e o portão


Tem pessoas que passam por nós sem ficar em nossa história, não influem em nada e rapidamente são esquecidas; outras, porém, tornam-se parte do que somos e vivem para sempre em nossa memória. Tenho claramente as melhores lembranças de minha mãe guardadas no altar do coração. Lembro-me da primeira professora e eu, acalentado em seu colo, tendo sua mão paciente sobre a minha, apoiando-me quando a palavra escrita nasceu assim trêmula de meus dedos. E também me lembro da freira boa, dando-me comida na boca-criança, na ocasião em que estive no hospital porque um carro me pegou. Ela surgiu do mesmo modo que desaparecera: do nada. Mistério.
Acontece que, por aí, aparece muito anjo que parece gente, mas não é. Fato ruim. Contudo, eu nada temo, porque, por outro lado, a vida foi mostrando para mim que, aqui e ali, espalhadas pelo mundo, existem pessoas que são anjos.
                Há vinte e um anos voltei a morar em São Paulo e logo conheci dona Nilzete; alma gentil e pacífica. Senhora da segunda casa à esquerda depois da minha. Não foi difícil perceber que na calçada de dona Nilzete se localizava o centro do Universo da garotada do condomínio no qual eu acabara de chegar, pois em seu portão ela e o indócil Seu Lula, o marido, amor de sua vida, vendiam deliciosos geladinhos de todas as cores e sabores.
Depois dos geladinhos, vieram doces, salgadinhos e enfim os picolés de fruta, dos quais eu e outro vizinho, Seu Ricardo, nos tornamos consumidores frequentes. Uma alegre pausa para descanso e refresco das crianças que brincavam dia e noite na rua. Eu já não era tão criança, mas continuava moleque, esticando a infância.
Assim também fiz amizade com as filhas do casal; Adriana, Daniela e Valéria, a quem chamamos de Léo. Vale dizer que a filha da Adriana, a pequena Yoko, foi quem me apelidou de Kizzy. Era é família Funiga. O tempo passou, compartilhamos vivências profundas. Laços se estreitaram. Não apenas com os Funiga, alguns vizinhos deste condomínio são mais próximos a mim do que muitos familiares, e não estou falando de distância física.
Seu Lula era uma figura. Fazia-se de durão mas era tão doce quanto aqueles que vendia; outra criança a brincar no condomínio. Cineasta amador; dirigiu um curta-metragem com a turma da rua: “A história do papa figo”. Com Seu Lula, tomei banho na chuva. A propósito, ele e dona Nilzete até já me enfiaram debaixo de ducha para me curar de um pileque. Certa vez, estávamos no portão quando, por brincadeira, Seu Lula chamou dona Nilzete de dona menininha. O apelido pegou. Até hoje eu a chamo assim. Desenvolvi muito afeto por dona menininha.
Com o falecimento de Seu Lula, encerraram-se os doces. As crianças cresceram. Mas dona Nilzete continuava no portão. Quando eu saia, quando eu voltava, lá estava dona Nilzete, no portão. Ali não trocávamos apenas saudações. Dividíamos um cigarro, lembranças, conversas. Para ela, nós, que crescemos no condomínio, éramos eternas crianças. Suas crianças. Ela dizia: “Vocês são todos meus filhos”.
Há poucos meses, dona menininha adoeceu. Semana passada, sonhei com ela. Sonhei que lhe fazia uma sopa quentinha e gostosa com peixe e legumes. Contei para o Igor e ele me disse: “Então faz a sopa!”. Voei para a cozinha e a preparei rapidinho, mas com todo o amor e cheio de esperança. Dona Nilzete adorava peixe. Levei a sopa. Juntei-me a ela num abraço que não tinha pressa de acabar. Enchi-lhe de beijos. Disse-lhe que ia ficar tudo bem. E também disse: “Eu te amo, dona menininha”. “Eu também te amo, meu filho”, respondeu ela.
Durante o inverno, dona Nilzete costumava tomar um solzinho pela manhã e eu me sentava ao seu lado no quentinho gostoso. Muitas vezes eu ia até ela apenas para beijá-la, atrás daquele carinho de mãe que às vezes me faz falta.
Ontem, uma vez mais, dona Nilzete se dirigiu ao portão. Mas desta vez foi diferente. O portão voltou a lhe trazer alegria. Seu Lula estava lá do outro lado, onde a esperava cheio de luz. E sorrindo foi logo dizendo: “Ah, dona menininha, dona menininha... Chega de saudade, mamãe! Vem pra cá com o papai. Sou todo seu. Eu sempre fui”. Olha só! E não é que ela foi mesmo? Dona Nilzete atravessou para o outro lado. De mãos dadas com o amor, foi-se embora portão afora.
Esta madrugada, recebi a notícia pela Dani. Logo, Igor e eu, fomos para a casa de dona Nilzete, abraçar as meninas. Quando as vi, o peito apertou por elas. Eu já havia passado por aquilo, então sabia o que estavam sentindo. Não é fácil perder a mãe. Tentei distraí-las, ocupá-las com alguma coisa para que seus corações respirarem um pouco. Saí sem avisar e voltei com pães e frios. Propus que fizéssemos lanches para levar ao velório.
Dada hora, saí para fumar. O Igor veio, falou comigo e foi à nossa casa, preparar uma garrafa de café. Eu ainda estava nervoso quando algo me chamou a atenção para o portão ausente. Olhei aquela falta por alguns segundos e senti uma paz seguida de uma saudade prematura. Aquele carinho que eu tanto gostava, tornei a perder. Estava triste, mas, naquele momento, meu coração se encheu de alegria. Percebia que a vida novamente havia demonstrado que, aqui e ali, espalhada no mundo, tem gente que é anjo. Feliz de nós quando o encontramos.

Portanto, obrigado, dona Nilzete. Agradeço por tê-la conhecido. Adeus, dona menininha, mãezinha da rua. Vou me lembrar para sempre da senhora quando me sentar ao Sol nas manhãs frias de inverno, pois com a lembrança de seu sorriso e de seu beijo terno eu me aquecerei.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Retorno e novidades para meus fãs

Há nove meses sem postar nada aqui, lembro-me, enfim, que tenho blog.
Também tenho novidade para meus fãs: um novo livro.

Antes, algumas coisas devem ser esclarecidas.

O Clube dos Imortais não será mais uma trilogia.
Esquece esse papo de Trilogia Leão Negro.
O terceiro livro não se chamará mais A Queda do Vampiro, notei que A Queda é um nome clichê. Já tinha resolvido que não queria mais o nome A Queda, pois os fãs ainda chamavam o terceiro livro pelo nome inicial: LEÃO NEGRO. 
Mas, antes que perguntem, não. Não terminei de escrever LEÃO NEGRO e nem tenho previsão.

Batizei de CÂNTICOS DO PARALELO NOTURNO minha série de histórias sobrenaturais em geral e não somente as histórias com o vampiro Luar e sua trupe. Assim sendo, podemos dizer que O CLUBE DOS IMORTAIS é o 1º volume. DIÁRIO DA SIBILA RUBRA, o 2º e, O MISTÉRIO DO RIO DAS ROSAS BRANCAS, deve ser considerado o 3º volume, mas estou colocando por ordem de publicação, pois as edições não terão números, como, por exemplo: "Livro 1", "Livro 2" etc. Isso é bobagem. Cada um coloca como quiser. Portanto, considero o novo livro como o 4º volume dos Cânticos do Paralelo Noturno. Então, orgulhosamente, apresento a vocês: ETERNO CASTIGO.

ETERNO CASTIGO
O vampiro Luar está de volta!

Eterno Castigo, quarto volume dos Cânticos do Paralelo Noturno, é uma coletânea de histórias escritas e ilustradas por Kizzy Ysatis e dividida em duas partes. Na parte I (contos) encontram-se reescritos os antigos contos vampirescos do autor, junto a eles somam-se mais dois inéditos. Na parte II (novela), o autor inova em Perfume para Kaori, realizando o primeiro crossover entre vampiros da Literatura Fantástica Brasileira, ao unir o universo de dois dos mais expressivos personagens do gênero: o vampiro Luar e a kyuketsuki Kaori, criada por GIULIA MOON.

O livro já está em pré-venda, aproveite o descontão da Livraria Saraiva e compre AQUI


sábado, 9 de novembro de 2013

A beleza que nos cerca

Olhe bem para os meus olhos. Eu vi as estrelas. Por um poço aberto sobre a minha casa, entre as nuvens que fechavam o céu, elas cintilavam. É raro semelhante esplendor na cidade grande. Mas é natural que brilhem mais antes da alvorada, quando a noite é mais escura. Na hora mais escura, as estrelas se mostram mais brilhantes. E também haviam alguns vapores arroxeados que lembraram uma nebulosa distante. O buraco no céu me transportou pelas galáxias. Agradeci ao universo por tamanho espetáculo. A beleza nos cerca o tempo todo, e há quem só olhe a tristeza. Mas na hora não pensei nisso, centrei-me apenas no milagre que o céu me regalava e me senti cheio dessa luz. Enriqueci meu coração e brilhei como as estrelas. Nesse momento me perguntei quantas pessoas no mundo naquela mesma hora estariam contemplando as estrelas, quantos narcisos se espelhavam no lago cósmico, esperando a estrela gêmea lhe devolver o olhar. Creio que a maioria pensa diferente. Cansei de ouvir: “Oh, é nestas horas, diante desta grandeza, que percebemos o quanto somos pequenos”. Eu não penso assim. Pelo contrário. De nada vale o poder das estrelas de lançar sua imagem através do espaço se não há olhos que as vejam. São meus olhos os donos da força capaz de captar a luz das estrelas. Então nós nos completamos. Sem meus olhos elas jamais seriam vistas como eu as vejo. E as vejo com o coração. É minha alma que as sente e as transforma em maravilhas. As estrelas só cintilam quando nos estão olhando, e brilhamos quando retribuímos o olhar.

(Kizzy Ysatis, São Paulo, 8 de novembro de 2013)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O LUAR DE CADA UM

Exposição: O LUAR DE CADA UM
Um vampiro de muitos nomes e também de muitas faces
Veja o vampiro Luar retratado em várias técnicas e estilos por diferentes artistas
Quando: Sáb, 15/06/13 às 18h Onde: no Espaço Terracota Editora durante o lançamento do livro O CLUBE DOS IMORTAIS, ed. ilustrada

segunda-feira, 27 de maio de 2013

LANÇAMENTO ESPECIAL


Noite de autógrafos e lançamento do Livro O CLUBE DOS IMORTAIS, nova edição revista e ilustrada. Venha com sua máscara preferida e concorra a sorteios e descontos em outros títulos do autor.

Onde: Espaço Terracota. Av. Lins de Vasconcelos, 1886. Vila Mariana - São Paulo
Quando: sábado, 15 de junho de 2013, das 18h às 22h.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O CLUBE DOS IMORTAIS 2ª edição chegou!!!


O livro está de volta com nova capa, com ilustrações feitas por este autor, e, claro, com o belo e cruel vampiro Luar.

Leia o PRÓLOGO do livro
Disponível no site da LIVRARIA SARAIVA

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

EIS O MUNDO DE FORA


Escritora se mostra alquimista ao fazer o real virar maravilhoso
Por Kizzy Ysatis


Quem está acostumado com histórias em que todas as coisas se resolvem concretamente no final vai estranhar o romance de Adrienne Myrtes. No mundo real as resoluções são abstratas. Eis o mundo de fora, livro vencedor do Prêmio Petrobrás Cultural, expõe ossos e nervos em um dueto fraterno com o delírio.
      Os protagonistas Irene e Luis são como a dupla do famoso sitcom Will e Grace: a mulher hétero que mora com o melhor amigo gay; só que na realidade o drama se sobrepõe à comédia. Luis acabou de tentar suicídio quando Irene descobre que sua avó padece de uma doença em estado terminal. Ambos decidem viajar e ficar uma semana com a velhinha. E é nessa viagem que conhecemos suas histórias.
    Irene enxerga o realismo do mundo, como ele se apresenta fisicamente, sem a maquiagem que a humanidade criou pra deixá-lo suportável.

“Aprendi a ver a vida por dentro e virar a morte pelo avesso. Daí veio meu talento para ignorar a mistificação do mundo, a possibilidade de castigo divino (...) A descoberta do miolo das coisas, das células e suas organelas foi um tiro sem misericórdia nas tentativas de minha avó de me fazerem temer a deus sobre todas as coisas, de me fazerem ansiar pelo céu e fugir do inferno.”

       Para Irene o coração não é o naipe de copas, é aquele músculo feio cheio de artérias, que não à toa é a imagem na capa do livro desenhada, assim como as ilustrações internas, pela própria autora que também é artista plástica. As imagens engendradas por Myrtes nos remete ao onírico em contraste ao realismo da trama. Irene teme viver o presente e se assusta quando precisa enfrentar o passado, então ela o mastiga.

          “Eu me abandonava pelos cantos até ficar invisível. Deixei o esquecimento dos adultos chover sobre mim para crescer. Mantive-me atenta a eles. A ausência de outras crianças me beneficiou com o silêncio, aprendi a falar pouco e a ouvir o vento, o latido dos cachorros na rua, a chuva durante a noite.”
               
         A princípio Irene parece ser mais profunda. A vejo como uma cebola: cheia de camadas. Tem família, tem infância, tem sorvete de mangaba. Luis tem a ele mesmo, e isso o torna fascinante. Na primeira metade do livro preferi Irene; preferi Luis na segunda, mas no final descobri ambos como uma somatória. Ela se reserva, ele se joga.
     Com Luis a metáfora está feita: ele não tem olhos pra realidade, enxerga o mundo através da artificialidade de suas lentes de contato. Prefere as ilusões que cria. Retira suas lentes quando quer mergulhar para seu próprio universo.

        “A vida é uma mulher velha e feia que sente falta de orgasmos. Na impossibilidade de resistência, porque ela me agarra pela garganta, me disponho a inundá-la com o meu gozo.”

          Luis é legal porque se expõe com naturalidade, é despido de pudores.

                “O sexo dele também cheirava a jasmim, jasmim em botão que explorei com os dedos, pétala por pétala a flor do cu.”

          No começo Luis é uma bala: a gente chupa, chupa, mas quando parece que vai perder o gosto, ele se refaz com mais intensidade. Ama Irene, mas briga com o senso de realidade da amiga, cede ao delírio e se torna o oposto perfeito.

              “Irene diz que nos salvamos pela dor. Apenas a dor é o antídoto para a estupidez humana, Irene parece farmacêutica, xarope. Não estou a fim de receita. Ela precisa aceitar que talvez eu não queira ser salvo, que a danação eterna pode ser meu plano de carreira.”

              “Agimos feito alquimistas que se propõem a transformar ouro em chumbo para se sentirem reais. Precisamos nos convencer de que a realidade é valiosa. De que o delírio é impuro. Dionísio que nos salve da nossa sensatez.”

        Eis o mundo de fora é visceral e perturbador, mas está longe de ser uma leitura pesada. Vem em camadas ora sutis ora explícitas. O mérito está na sensibilidade da autora em reger sua obra com competência. O real é feio, mas a autora é fecunda e sabe dar encanto, deixa tudo mais belo e até divertido. Cada palavra é cuidadosamente escolhida, cada sentença, prodigiosamente executada. Myrtes cria epigramas e aforismos dignos de Wilde, questionamentos shakespearianos; faz uso de recursos poéticos que enriquecem a prosa, assopra ecos e produz aliterações que faria inveja ao mais proeminente simbolista. Irene vê o mundo com olhar clínico, os pensamentos são dela, mas é Adrienne quem segura à caneta.
          Na ficção a mocinha derrota a vilã, enriquece e se casa no mesmo dia. Na vida real algumas coisas se resolvem, outras, não. Eis o mundo de fora é honesto, não forja mentiras nem reforça a esperança de que os sonhos são possíveis, mas também não desaponta nem nos desconforta, pelo contrário, deixa uma sensação libertadora. Não é resignação, apenas exalta a graça da continuidade. Tudo é passageiro, mas o jogo continua. Virão outros desafios. Com o dedo indicador eu escrevo na tela do computador:
Essa é a maravilha de estar vivo.

Título: Eis o mundo de fora
Autora: Adrienne Myrtes
Editora: Ateliê Editorial
Páginas: 168
Quanto: R$ 35,00
Onde comprar: LIVRARIA CULTURA

Adrienne Myrtes nasceu no Recife/Pernambuco e vive em São Paulo desde 2001. É também artista plástica. Publicou o livro de contos: A Mulher e o Cavalo e outros contos (Editora Alaúde, EraOdito Editora, 2006), a novela juvenil: A Linda História de Linda em Olinda (Editora Escala educacional, 2007) este último em parceria com o escritor Marcelino Freire e participou, das antologias Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial, 2004) e 35 Segredos para Chegar a Lugar Nenhum – Literatura de Baixo-Ajuda (Bertrand Brasil, 2007) entre outras. E-mail: adriennemyrtes@hotmail.com

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Entre a honra e a enxurrada.


Há poucos dias, em que a chuva fez a rua escurecer, sai no terraço e vi passar uma sombra assustadora volateando. Um morcego? Não, uma raridade. A mariposa imperador. A maior do mundo, pelo tamanho se sabia. Nossa! Soltei o grito de alegria. Há pouco me surpreendi com uma pepita de ouro sobre o raminho verde que – graça à chuva – vencia o concreto no corredor do quintal. Parecia uma flor, mas era uma mariposa dourada e do tamanho da minha mão. Tinha o corpo rajado como um tigre e um casaco de pele sobre os ombros, como um leão. Estendi meu dedo bem recebido. Sobre a palma notei que lhe pesava a agonia de seus momentos definitivos, a asa já não prestava mais. Parecia em paz, mas borboleta não tem voz, não grita. Como saber se está aflita? Lembrei-me de uma prática pagã que diz que se você matar a primeira borboleta que ver em janeiro, terá sorte o ano inteiro. Mas não era uma borboleta, era sua parenta; na verdade, a mesma coisa. A mariposa é a borboleta noturna. E, pasme, é mais forte; seu casulo é mais duro, precisa de tenacidade pra nascer e coragem pra viver, pois enfrenta os predadores noturnos. Maiores, ferozes, famintos. Aquele não era o fim digno que merecia: ser triturada pelos dentes afiados da gata, ou levada pela enxurrada da chuva no fim da tarde. Não, pensei sobre o que eu desejaria se fosse comigo e a resposta veio ligeira, indubitável. Eu ia fazer eutanásia na borboletinha, rainha dourada, tigrada. No entanto meu coração se apiedou. Frouxo! Covarde! Imaginei a imponente falando: Por que acha que tão tranquilamente subi na sua mão? Por que acha que eu vim parar aqui? É porque te conheço. Sabia que me notaria e me livraria de um fim doído e feio. Sei que é capaz disso. Sua alma não guarda segredos a minha espécie, somos nós as encarregadas de subir a alma do homem. Como ousa me desrespeitar assim? Conceda-me a dignidade a que vim buscar. Que bobagem, pensei. De onde tirei esses pensamentos? Vai, mariposa, irrite-me pelo menos. Mariposa pica? Não sei, mas se você me picar eu juro que te mato sem pestanejar. Não houve nada. Resolvi devolvê-la ao raminho, e então aconteceu. Pisei na merda. O corredor já tinha sido limpo. Como não vi a Kira, minha labradora gorda, preta e enorme vir defecar atrás de mim sem que eu percebesse? Que tipo de bruxaria é essa? Falei. Ah, aquilo me irritou bastante. Ela morreu assim sem dor. Eu a esmaguei num átimo. Sabia que não era a primeira borboleta que eu via. Mas fiz assim mesmo. Sem arrependimento, aliviei seu sofrimento. Pra mim o certo é assim: dar ao outro o bem que desejamos a nós mesmos. Até então ainda é janeiro, que a sorte nos brinde pelo ano inteiro. Abençoada seja!