Estou de passagem neste mundo,

Mas deixo aqui o registro de minhas palavras.

Eu sou o peregrino do tempo.


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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Nova capa de O Clube dos Imortais, 2ª edição reescrita e ilustrada pelo autor.

Embora as ilustrações do miolo ainda sejam minhas, optei em chamar uma artista gráfica poderosa para fazer uma releitura da capa que projetei para esta edição. Por quê? Explico: agora que virou série, as três capas deveriam irmanar para não confundir na concepção da 3ª. A que eu fiz não combinava com a do Diário da Sibila Rubra.

É provável que a artista assine também a capa de A Queda do Vampiro (antigo Leão Negro, livro 3 e parte final da trilogia)

Então chamei Celtic Botan, que além de ser uma artista de primeira, é fã da obra e conhece a história de trás pra frente.

Como podem notar, a riqueza de detalhes é impressionante, ela colocou até o livro certo na mão de Luar, o romance As Ilusões Perdidas, de Balzac.

Clique aqui conheçam a arte de Celtic Botan.

O livro estará à venda em setembro de 2011

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011


Aqueles que habitam o Paralelo Noturno

XVI - Quero morrer agora mesmo

— Quer dizer que sou filha dele duas vezes?

Elaine anuía com a cabeça enquanto Marta, mesmo estando ciente de tudo, questionava deliberadamente os pormenores como se não pudesse ou quisesse crer, e precisasse de confirmação para cada detalhe:

— Depois que Fausto a violentou, eu vim a nascer; e quando ele dormiu com Patrícia, a própria neta, eu reencarnei?

— Exatamente.

Mortificada, Marta desabou no sofá. Elaine tornou à poltrona e procurou ser gentil no tom, já que as palavras feriam:

— Nunca entenderemos plenamente o propósito dos espíritos, mas neste caso eu creio que tenha sido uma questão de linhagem. Eu fui adotada. O sangue das ancestrais devia retornar às sibilas; e isso irremediavelmente ocorreu por meio de Fausto, que é filho da Mãe Vermelha. O plano veio de Luar, mas quiça não tenha sido soprado por algo maior.

Marta não conseguia encarar sua mãe e bisavó. Balançava a cabeça em constante negação:

— Um plano cruel.

— Um mal necessário. Sacrifícios inauditos foram feitos por gerações de Sibilas Rubras em nome de nossa Ordem. Este não seria o primeiro.

— Pra mim é monstruoso.

— Hoje eu vejo como ritualístico e fundamental. O que importa é que tu és a única filha dele. És minha filhinha, minha bisneta, minha amada criança. Precisavas saber disso. Agora, mais do que nunca. Tens uma tarefa que lhe será custosa. Ergue a cabeça, menina.

Marta ergueu e viu que Elaine chorava. A senhora tinha nos olhos amor e piedade e sabia muito mais do que podia contar. Pousou sua mão sobre a da filha, respirou, e um perfume dulcíssimo encheu a sala de conforto e consolação.

Marta não era mais uma criança, nem moça, era mulher. Mais que isso, uma sibila rubra. Enxergou milênios de dignidade nos olhos da ancestral, pôs-se em seu lugar e sentiu, num átimo doloroso, o quão difícil era para Elaine ser portadora de más notícias.

— É uma punição?

Elaine não compreendera, sua expressão sincera denotava isso:

— Como assim?

— Se eu sou Virginia, eu me matei. Quando a senhora faleceu, Fausto procurou Virginia e a colocou a par de verdades que antes ela não sabia. Ela não suportou e se suicidou. Eu me matei, abandonando Patrícia, minha filhinha, aos seus cuidados. Significa que estou pagando por meu suicídio, é isso? Se for isso, eu quero morrer de novo. Quero morrer agora mesmo.

Agora Elaine pareceu mortificada:

— Não, minha filhinha — negou Elaine com benevolência. — Não é. Sabes muito bem que não. Lembra-te dos ensinamentos codificados nas entrelinhas do diário. Não cremos em castigo. Deixa essa farsa aos fanáticos. Ademais, sou eu que estou te dizendo. No entanto há algo que precisas aprender. Não se trata de uma lição punitiva, mas uma coisa... uma coisa que só compreenderás depois; que só diz respeito a ti, e que compreenderás sozinha.

Tomada de uma emoção incontrolável, Marta tornava a debulhar-se em lágrimas. Era sua alma lembrando-se de algo que ela mesma não sabia dizer.

— Minha mãe. Minha mãezinha querida. Me ajuda. Eu não entendo.

Elaine alisava seu rosto carinhosamente:

— Ah, mas vais entender... vais entender. Dá tempo ao tempo. Na tua vida anterior, fizeste promessas. E lá, onde estavas antes de aqui, aprendeste muitas coisas, só que não te lembras. Sabias que talvez houvesse sido tu quem tenha pedido ao plano superior para retornar e ajeitar as coisas? Por isso és tão especial. E eu tenho certeza que, antes que teu tempo aqui se extinga, terás cumprido tuas metas e honrado tuas promessas. E as promessas mais importantes são aquelas que fazemos a nós mesmos.


[Continua...]
LEÃO NEGRO
A busca pelo vampiro Luar
Um romance de KIZZY YSATIS

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Aqueles que habitam o Paralelo Noturno

XV - Tempo de perdão

“Eu devo vencer o egoísmo. Estar ciente das minhas mágoas, medos. Aceitá-los. Seguir adiante. Absorver o entorno. Compreender. Expandir-me. É o que a deusa espera de mim. Nada é mais simples do que parece, e no entanto tudo é claro e manifesto”.

Elaine de Voltaire e Marta Morgado se observam em silêncio. Marta ainda com a mão no rosto matizado de vermelho pelo tapa ligeiro que levou. Elaine segura às próprias mãos cruzadas no ventre. Os olhos de Marta, de um azul indizível e cristalino, tremem de agitação, enquanto Elaine segue imóvel à semelhança de uma rainha egípcia. Tudo ocorre num átimo. Uma miríade de pensamentos devasta a alma da jovem matriarca. A antiga matriarca, por sua vez, aguarda com paciência a jovem chegar a um denominador comum.

“Elaine espera minha reação. Não está me punindo, está me testando. O tapa não foi um ato passional. É o que ela quer que eu pense. Quer saber se agi ou agirei por impulso, sem temperança, ponderação. Sem respirar. Ela está me treinando. Treinando para as provas que virão, quando terei pouco tempo para pensar. Quando não deverei agir por impulso gerado pelas químicas do corpo mas por uma reação intuitiva moldada pela alma-fêmea.

“Eu li o diário, sei o que se passou. Sei que as circunstâncias tem voz ativa e os erros da juventude nos capacitam para as sábias decisões da maturidade. Devo prosseguir, mas continuarei em tom de protesto. Agora sou eu quem vai testá-la, se é que posso. Elaine tem algo importante a dizer, senão não teria vindo”.

— Como pôde perdoá-lo? — perguntou Marta, refazendo a atitude.

— Quem ama perdoa.

— Pensamento cristão.

— Amor não tem religião.

— Não me peça para aceitar Fausto. Você mesma levou a vida inteira.

— Levei. Admito. Mas não significa que tu também tenhas de esperar tanto. Para isso deixei-te meu diário.

— Mas não posso obrigar meu coração.

— Tens razão, minha filha. Mas tempo é um luxo que não temos; taí o motivo da minha visita. Se souberes a verdade, poderás atingir um entendimento que a conduzirá a vitória. Uma guerra feia vem por aí e tens de estar pronta. Construir alianças. Não é tempo de rancor ou vingança. É tempo de perdão. Reconciliação e força.

— Não sei se posso.

— Não duvida de ti. Tens força. A Sibila Rubra jamais retrocede. Mas é natural que a presença de Fausto a machuque, são as lembranças infelizes do teu passado que gemem em ti a covardia. Já não tinhas aceitado da primeira vez...

— Primeira vez? Como assim?

— Tu és Virginia. Tu és minha única filha. Virginia.

“Eu devo vencer o egoísmo. Estar ciente das minhas mágoas, medos. Aceitá-los. Seguir adiante. Absorver o entorno. Compreender. Expandir-me. É o que a deusa espera de mim. Nada é mais simples do que parece, e no entanto tudo é claro e manifesto”.





[Continua...]
LEÃO NEGRO
A busca pelo vampiro Luar
Um romance de KIZZY YSATIS

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011


Aqueles que habitam o Paralelo Noturno


XIII - Uma leve bofetada

Embora Marta já estivesse familiarizada com a imprevisibilidade do sobrenatural, a aparição do espírito de sua bisavó a comoveu demais. Pensou em manter a naturalidade, enquanto o coração brigava como criança para correr ao abraço. Queria dizer o quanto estava feliz e ao mesmo tempo honrada.

Elaine apagou o cigarro num cinzeiro que antes nem existia e levantou-se, solenemente:

— Vem cá, filha. Primeiro vem me dar um abraço.

Marta foi bem depressa.

— Esperaste muito por isto, que boba que eu sou.

O abraço foi longo e Marta soluçava.

— Eu não esperava... mas já sonhei diversas vezes com a senhora; e nestes sonhos te abraçava sempre que tinha chance.

— Toda oportunidade é uma chance. Ah, mas eu sei. Eu sei — disse Elaine agora sacudindo ambas as mãos da bisneta. — Ah, minha filha, fica sabendo que era eu. Nossa, eu estava lá no teu sonho, abraçando-te. Eu te amo, filha. Eu te amo.

— Tenho tanta coisa pra dizer pra senhora.

— Quando quiser, fala. Estarei sempre te escutando.

Marta enxugou as lágrimas. Elaine carinhosamente a ajudou.

— Mas hoje tens de me ouvir.

— Sim senhora.

— Vais receber uma visita.

— Outra?

— Hu-hum.

— Hoje é o dia das visitas.

— Pois é.

— Quem vai vir?

— És tu quem vais responder.

Marta disparou, meio assustada meio curiosa:

— O teu compadre?

Elaine sacudiu a cabeça desaprovando:

— Muito apressada — respondeu um pouco severa —, e ansiosa também. Assim não acertas. Teu coração parece um formigueiro. Concentra-te!

— Desculpa.

— Vamos lá, menina! Respira.

Marta fechou os olhos. Tomou fôlego inspirando profundamente e deixando o ar sair assim num sssssss prolongado. Enfim os olhos se abriram descontentes:

— Ah... ele...

— Bom. Ao que vejo, agora já sabes.

Marta deu um passou para trás:

— Mas o que ele vem fazer aqui, me violentar também?

Sem alterar sua aparente serenidade, Elaine deu-lhe uma leve bofetada.


[Continua...]
LEÃO NEGRO
A busca pelo vampiro Luar
Um romance de KIZZY YSATIS