Estou de passagem neste mundo,

Mas deixo aqui o registro de minhas palavras.

Eu sou o peregrino do tempo.


terça-feira, 14 de setembro de 2010


...um desses anjos de Moore, desses anjos formosos que nos tempos primeiros do mundo amaram com amor de anjo as virgens da terra, de tão belas que as acharam.

Álvares de Azevedo, carta a Luis Antônio

Santos, 1848 - após aquele baile fascinante

Estou na proa e não há quem me atrapalhe. Intriga-me a noite, esta observa minha nudez. A chuva é miúda e fria, castiga, mas me mantém de pé. O chuvisco gruda o cabelo no rosto, mistura-se às lágrimas, ao sangue. É disso que é feito o homem: água, sal e mar. É isso que ofereço a Poseidon: ao mar, um mar de sangue. A dor não esconde a dor. Ambas rimam e riem, zombam de mim. Não se consomem e a aflição é tremenda. Vergonha, tudo se resume a isso. A desonra é a quintessência da dor, não há homem que negue. Então, que o diabo me carregue. Que minha angústia afunde com meus ossos para o fundo gelado do oceano, meu ataúde infinito. Derramei a última lágrima. A juventude passou e o amor não veio. Tudo que mais quis me foi saqueado na mesma noite. Roubaram minha nobreza, família e agora sucumbi, fui do amor à desilusão num baile de máscaras. Quero esquecer tudo. Tudo acaba um dia, até o sofrimento. E o meu terminará agora porque faço com que termine. Não há Deus que me sujeite à cruz. Não sou obrigado! O corpo já fenece. Os olhos se apagam e a alma se despede, deixando-me tombar devagarinho.

***

Ainda existo? Não se pode crer. Estou sobre o mar novamente. Impossível! Mas a barca é outra e não ouso olhar para o barqueiro. Espere! Não é mar, é rio. Um rio de longa travessia. Choro outra vez. O meu mal não finda, perpetua-se. A vida é uma piada e a morte, um engodo. Não há como voltar?

Um rumor apressa-se em anunciar a tempestade. Um zumbido emerge e tudo vai ficando mais e mais alto depois. Minhas veias saltam prestes a estourar. As águas se agitam e tudo estremece. Tudo ruge. Então acontece. A voz do trovão irrompe o entorno.

Cessai com o pranto, injustiçado diz a voz dos sete ventos. — Vinde a mim, ainda há jeito.

— Quem fala comigo? Deus? — pergunto ao eco que retumba da sombra do vale.

Está diante de vós um anjo. Neste lugar, a espera por Javé vos será longa e tortuosa. Meu Pai está distante de ti no tempo. Adonai é um observador severo e paciente, aguardará uma eternidade por vossa calma e resignação.

Permaneço calado e com muito medo.

Sois nobre. Permitireis que o rebanho imundo que vos espezinhou saia impune?

— Jamais!... Mas afinal, senhor, quem és? Que anjo é esse que me quer tomar de Deus?

SOU ANTES DE VÓS. SOU ELOHIM!

Encolho-me aterrorizado.

Na aurora do homem, fui vosso vigia, a sentinela, o arcanjo comandante dos anjos vigilantes.

A voz silencia mas sei que o arcanjo não se foi. O rumor, o zumbido e a agitação na água, seguem de contínuo. Então ele torna a falar:

Sou o filho da traição, abatido pelos irmãos e jogado na escuridão... Sou, pois, Azael, o arcanjo que caiu do Hermon sob o peso do Anátema. Dou direito aos injustiçados para que reivindiquem a vida. Tendes livre arbítrio. Podeis voltar por direito de escolha atribuído por Aquele Que Tem Mil Olhos, e tal escolha não exime a morte.

— E como faço para voltar?

Lançai-vos às águas turvas.

— Novamente?! Mas já o fiz e veja cá onde parei.

NÃO AMEALHO COVARDES!

Outra vez me aterrorizo.

Fazei. Que eu vos recolherei. Não quereis retornar? Não quereis vos vingar? Aceitai-me e eu vos darei poderes que nenhum homem vivo jamais possuiu.

Respondi sem hesitar:

— Eu aceito!

Eu, Azael Arcanjo, permito vosso regresso e vos concedo o domínio sobre os animais, o poder sobre as tempestades... e a vida eterna.

A tormenta abranda. O rumor e o zumbido e o balanço se aquietam. E depois, o peculiar e efêmero ruído de um corpo que se choca com a água.

Foi assim que me tornei o signo eterno do medo. A morte e a excitação. Aquele que se chamava Raul, ao cruzar o espelho da água, inverteu o nome.

— Batizado no inferno, torno-me, agora e para sempre, o vampiro Luar.


LEÃO NEGRO

A busca pelo vampiro Luar

Um romance de KIZZY YSATIS


6 comentários:

Gabriela Araújo disse...

Adorei o trecho, me deixou com mais vontade de ler o livro que está por vir!

Thiago de Rovere ¥ disse...

Lindo como o mar que transborda de tristeza a passagem do vampiro...
*deixo escapar uma lágrima*
Emoção.

Rose vulgo Uma fã disse...

Olha que coincidência...estava sem internet a três dias por causa de uma "tempestade" que acometeu minha terra. Um raio incinerou meu modem na segunda-feira pela manhã. Um raio que admirei ao cair do céu, me chamem de louca, mas adoro tempestades, elas me acalmam. Gosto de escutar o vento soprando, ver a chuva varrendo as ruas, os relâmpados iluminando a noite e os raios esterilizando a terra.(pena são os danos que todo este poder da natureza as vezes provocam... riso). Me atrevo a dizer que a tempestade que continuou pela terça dia 14 estava anunciando a volta de "Raul". Ele já chegou fazendo estrago e arrebatando novamente meu coração...risos.
Maravilhoso e triste "Start" de romance...viu "My beloved writer" não precisas de ajuda.

um beijo soprado no sereno...

Kizzy Ysatis disse...

Gabriela

se gostou, volte sempre, semana que vem tem mais.
grato.
....................

Thiago

bem vindo ao meu novo experimento. o clube eu contei de um jeito, a sibila de outro e neste tentarei uma nova estratégia.

veremos se gosta

.....................
hahahaha
olá, Rose.
é por essas e outras que vejo o quanto vc conhece e gosta do personagem, você o conhece bem e se lembra que a tempestade o anuncia.

beijos devolvidos no sereno
.......................

Luciano Couto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Laísa Couto disse...

Lindo, Kizzy! Suas palavras tem uma força inacreditável! Ressoam na nossa mente como uma tempestade de trovões! Estou com o Clube dos Imortais aqui para ler! Já li o Diário da Sibila Rubra e espero ter todos seus trabalhos na minha estante.