Estou de passagem neste mundo,

Mas deixo aqui o registro de minhas palavras.

Eu sou o peregrino do tempo.


terça-feira, 2 de novembro de 2010

Aqueles que habitam o Paralelo Noturno

VII - Montserrat quer ser Agamêmnon

Bem acondicionado à mesa sofisticada do restaurante D.O.M., no bairro Cerqueira César, um homem de duzentos anos janta sozinho. O homem aparenta cinquenta anos e maneja os talheres com toda a elegância que o estabelecimento exige, ainda que não se prive de mastigar com a avidez de quem se apraz com a comida. A cadência, só é interrompida em intervalos pequenos para que se sirva da bebida que escolheu para acompanhar o filet mignon de javali ao roti: um grande e farto copo de leite gelado. A discrição do fino trato impõe às mesas vizinhas que sejam discretas ao repararem no próximo.

Nem por isso deixaram de notar, com suave estranheza, o gosto peculiar do homem que preferia leite ao vinho. Afinal que problema tem? Seria mais curioso caso se atentassem aos olhos azuis e profundos do charmoso senhor em Armani cinza; e se o fizessem, teriam percebido que ele não piscou, sequer uma vez, enquanto comia. Notaram o leite, notaram o traje que combinava com o cabelo grisalho devidamente aparado, o porte que desenhava ostentação. Mas não era engraçado que ninguém lhe tenha olhado os olhos? Talvez fosse o instinto de preservação que não os fizesse encarar os olhos vítreos de Balthazar.

Como boa parte dos vampiros, Balthazar adorava comer do bom e do melhor, muito embora seu corpo morto já não necessitasse de alimento e pela mesma razão não sentia fome. Entretanto, preso à matéria, como era, sucumbia aos desejos mentais da mesma. Comia por gula, por vício, ainda que um vício menor diante daquele que todos os vampiros têm pelo sangue.

Balthazar não se abstinha dos prazeres e satisfazia suas vontades, todas elas. Fato tal que o induzia, nos dias de hoje, a ainda fazer uso do ópio como paliativo para os tédios diários da vida eterna.

Com o desprezo pelos mortais que é tão inerente àqueles que abdicaram da morte, Balthazar não dava a mínima para o de redor e por isso não percebeu quanto tempo passou desde que um fato estranhíssimo ocorrera havia um minuto naquele restaurante. Percebeu apenas quando deu falta dos sonidos, pois embora tivesse os olhos bem abertos, os ignorava amiúde. Mas não havia mais os murmúrios, os risos suaves, o tilintar das taças e dos talheres. Então, sua cabeça moveu-se, vagarosamente, num giro de 180 graus, onde ele pôde observar que todo o restaurante havia paralisado. Os mortais pareciam congelados como estátuas. Vítimas atingidas pelo encanto da medusa em pleno movimento de suas ações corriqueiras. Uns com o garfo trazendo o alimento a meio caminho da boca, outros com a taça de vinho; garçons que pararam enquanto traziam o prato, serviam o jantar ou uma bebida que continuava saindo da garrafa inclinada, mesmo a taça estando cheia. O vinho transbordava. Era uma reação causada pela presença sobrenatural. Não dele, Baltazar não causara o feito, era outro imortal. Os mais poderosos, os quais foram erguidos pelo próprio Azael, tinham tais capacidades extracurriculares. O vampiro Luar, por exemplo, quando queria, enfeitiçava com uma fragrância misteriosa que deixava as pessoas excitadas e entorpecidas. Balthazar, por sua vez, possuía o dom de fazer com que não o notassem e que seguissem com sua vida medíocre sem percebê-lo. Bênção que os mantinha incólume ao vampiro. O que estava ocorrendo ali era uma demonstração de poder, uma espécie de hipnotismo coletivo. Balthazar não viu ninguém entrando ou caminhando em sua direção, quando notou Montserrat, este já se encontrava sentado a sua frente. Balthazar não o conhecera em vida, portanto não lhe apetecia se interar das mudanças ocorridas após seu retorno. Ainda vestia-se de preto e na ocasião apresentou-se com um costume tão justo que ressaltou-lhe toda a sua esbelteza. Montserrat ainda tinha a aparência jovem e o mesmo corte que lhe agradava, dreds aloirados e longos. Tinha se desfeito do piercing e aderido ao uso de uma barba rala e bem cuidada. A pele sedosa era um luxo da sobrenatureza, pois tinha aquela superfície perolada e fria, não apenas ao toque, mas ao olhar. Fazendo uma comparação pífia, poderíamos compará-lo a um boneco manequim, estático, plástico, rígido. Um objeto, enfim. Mas ao mover-se, fazia com graça, suavidade, e não como um robô, como se esperaria. Sua voz mudou por completo. Quando mortal, ainda que tivesse pouco mais de vinte anos, tinha uma voz de um garoto que acabara de sair da puberdade. Sua voz agora era distorcida conforme tivesse passado por algum efeito sonoro facilmente obtido por um equipamento de som; possuía eco e rouquidão:

— Balthazar, o rival mais antigo de Luar.

— Insolentezinho, o que me impede de arrancar sua cabeça?

— Para nós a morte não é uma alternativa.

Balthazar o examinou com desdém e se expressou com escárnio:

— Eu sei quem é você. Era o mortal puxa-saco com quem Parmiov se divertiu e depois se desfez como lixo. Coitadinho...

Montserrat levou algum tempo para responder:

— Para minha sorte. Se eu fosse feito por outro vampiro, não teria tantas vantagens. No entanto agora eu poderia separá-lo em tantos pedaços que levaria mil anos para que você retornasse.

— Quer tentar, fedelho?

— Não. Quero lhe propor uma aliança. Unir nossos territórios, aumentar nossas fileiras. Unificar.

— A resposta é não. Alcateias são para lobos. Estou muito satisfeito com o séquito que me serve. Para quê eu vou querer mais.

— Vai precisar.

— Não, fedelho, você que precisa. Você tem medo que Parmiov volte e te obrigue a cair de joelhos.

— Pelo que ele me dizia, era você que tinha medo dele.

— Há! Parmiov é insano. Tenho uma rede de hotéis, restaurantes, resorts. Gosto de existir no luxo sabendo que não preciso mais me preocupar com a morte. Posso continuar juntando dinheiro e aumentando bens para sempre, é o sonho de qualquer um. Parmiov é louco porque não tem nada a perder, gosta de “tocar o foda-se”. Mas nós tínhamos um acordo, respeitávamos nossos espaços. Ele gostava de ameaçar com um grande poderio de vampiros, dizia reinar sobre mais de dois mil e quinhentos. Soube que eram de mentira, que eram fantasmas o que ele tinha. Um exército de almas penadas que ele enganou e usou para nos enganar.

Montserrat ouvia sem se mexer. Baltazar seguia falando com o boneco:

— A bruxa vermelha os soltou, não foi? Pelo que eu soube, até os licantropos o abandonaram. Parmiov não foi dormir, ele foi se esconder. Hahahaha!

— Está redondamente enganado. Fausto ainda está lá e os lobos ainda estão organizados, unidos e fieis a Fausto que é fiel a Luar. Guardam a Mansão como a um santuário. Aguardam Luar como a um messias.

— O que você quer? O que eu ganho com isso?

— Quero ser esse messias. Para isso tenho de me livrar de Luar. Não tem como achá-lo, mas podemos atraí-lo. Eu os estou ameaçando. Se nós atacarmos, tenho certeza que darão um jeito de chamá-lo.

— Não subestime os lobisomens. Meus vampiros são vampiros comuns, chamados por mim. Com o quê você pretende enfrentá-los? Como você disse, eles são organizados, Luar é um azaelita de primeira grandeza. Os lobisomens alimentam lendas sobre sua forma lâmia, dizem que é um indestrutível leão negro.

— Pode ser outra mentira, como os dois mil e quinhentos vampiros falsos.

Balthazar coçou o queixo, pensativo.

— Pode ser, mas não podemos arriscar. E o que você tem para atacar, mais fantasmas?

— Não. Criei vampiros. Inúmeros, mas não o suficiente. Precisamos nos unir.

— Fedelho. Não está contando com o principal. A arma secreta de Parmiov, algo tão antigo quanto nós, e talvez ainda mais poderoso.

— Do quê está falando?

— A ordem das Sibilas Rubras.

Finalmente uma ruga de expressão cavou-se na testa de Montserrat, num ligeiro erguer de sobrancelhas.

— As sibilas não oferecem perigo. Só tinha uma, Patrícia. E quando voltei, descobri que Patrícia deixou de existir, se entregou ao fogo do Serafim.

— Há uma outra.

— Quem?

— Descubra.

Montserrat não parecia mais um bom jogador. Achou que tinha todas as cartas na manga. Balthazar se aproveitou disso:

— Não está mais seguro, fedelho.

— Não me chame mais de fedelho. Você me chamará de mestre.

Balthazar se ergueu. Montserrat sequer moveu-se. Olharam-se assim por minutos. Os olhos do novato poderoso advertiam: “Não se atreva”; e os do vampiro mais velho, que estava disposto a desmembrá-lo, retorquiam: “Está blefando”.

— Tenho Sheragash comigo.

Balthazar arrefeceu. Sentou-se.

— Sheragash? Nós, os líderes mais velhos, queríamos saber onde, ou com quem estava Sheragash. Se está com você, tem uma boa vantagem. Mas você não faz idéia do que é capaz as senhoras da montanha, elas controlam o vento, o tempo e moldam todas as forças desse mundo... e do outro. Se há algo que me faz temer, são elas; e se um dia temi a Parmiov é porque aquele maluco tirou a sorte grande e de alguma forma descobriu um meio de controlá-las, assim como controla Sheragash, assim como controla os lobisomens e assim...

— E assim tornou-se o senhor do Paralelo Noturno. Declarou-se rei. Tudo isso para conseguir encontrar um vampiro menor, que ele mesmo criou. Ele não dá a mínima para esse poder. É esse poder que eu quero. Pensei em achar a cria dele, o ser que ele procura; um poeta cuja presença ele espera o retorno. Seu esperado. Mas se nem ele o encontrou... quisera eu. Mas Luar é vaidoso. Se eu tomar o que é dele, ele vai voltar.

— Fedelho, ainda assim ele tem a bruxa ruiva.

— É você quem me subestima... Entrem.

Balthazar viu uma mulher entrar acompanhada de um menino. Ambos se aproximaram e se sentaram com eles. Montserrat os apresentou:

— Esta, você conhece, é Ione. Ela já aceitou minha proposta. E o menino, vou deixar que ele se apresente.

O menino pousou sua mãozinha sobre a de Balthazar. O vampiro enrugou e murchou até ficar como uma folha seca e escura. Os olhos azuis do vampiro destacaram-se esbugalhados e aterrorizados no rosto cadavérico e cinza. Ele não pôde se mexer até o menino remover a mão, e só então se apresentou:

— Eu sou Belial.

Em segundos, Balthazar recuperou seu aspecto comum para argumentar:

— Vocês não precisam de mim.

Montserrat balançou a cabeça:

— Preciso sim. Você continuará a governar os seus, mas irá responder a mim e me chamará de mestre, senhor ou rei. À Ione, prometi Sheragash. E foi Belial quem me procurou oferecendo ajuda, sabia o que eu precisava e não me disse qual será o preço. Mas adiantou que será algo que não me fará falta. E então, Balthazar, quer ou não ouvir meu plano?


[Continua na próxima terça]
LEÃO NEGRO
A busca pelo vampiro Luar
Um romance de KIZZY YSATIS

6 comentários:

Thiago de Rovere ¥ disse...

Belial...O.o, O Belial? medo...
Bem, então ai está a resposta da pergunta não feita sobre quem eram os Filhos de Balthazar. Ai está o inicio da guerra.
Mas agora me atento de que Montserrat não sabe quem é a nova matriarca da sibila rubra.
Irá ele reviver o amor que sentiu por Martha quando descobrir q ela é a poderosa sibila e o pior, que ela tem uma familia?

espero os proximos capitulos,
Thiago F.

Kizzy disse...

Thiago

Você se esqueceu de mencionar.

... e pior, que eles serão inimigos?

^_~

Thiago de Rovere ¥ disse...

é de fato eu esqueci essa possibilidade. Mas será que não tentará Montserrat tomá-la para si? e se não conseguir a tornará sua inimiga?
são muitas possibilidades.
espero ver o que vai acontecer.

Evan disse...

E os mortos voltam a caminhar!
Muito me satisfaz ver que Montserrat aprendeu bem com seu mestre e alimentou seu desejo sua obsessão com a vingança que nutre de luar...
Sheragash?!? me parece um artefato digno de pertencer a uma bruxa, se for isso o que Ione é!
Belial... outros caidos iram aparecer também?!?
Balthazar se curva perante a demonstração de poder de Montserrat, mas como deixou bem claro, só por motivos que o convém.
Rever ao infante do Paralelo Noturno apenas aguçou ainda mais o prazer que tenho ao ler cada linha dessa maravilhosa historia!
Meus parabéns...

Rose... disse...

Magnífico, mas ainda acho que o amor que Montserrat nutre por Martha será a ruína dele, mas vamos ver o que as próximas terças encantadas nos reserva...

Um beijo soprado no sereno...

iarashi disse...

amor e ódio.
o princípio e o fim, de tudo.